telefonemas podem constranger
um telefone brota do silêncio balançando meu olhar
trinados no ar concedem cara aos olhos do susto
borboletas me mordam, quem fala?
diz a voz vomitando da garganta o marrom da surpresa
distante 1.000 km o outro som demora dois micros segundos
para se associar à mente receptora
é a memória imprimindo-se no meu HD em contraluz
é o corpo imagem da voz logo reconhecida
boa noite! e a voz explicita o que não é mais preciso
agonia-me agora que ela se apagou na caixa de metal em seu mutismo
uma cachaça é preciso degustar para a intransigência da notícia
alguém diz que vem
meu corpo mais do que minha vontade não querem ser hospedeiros
levanto-me caio na noite como quem cai de um penhasco
sorte que o despenhadeiro tem apenas metro e meio
torço o tornozelo da arrogância
mendigo uma lástima
ninguém para dá-la
ninguém para aliviar e agora sou mal
talvez assassine alguém naquela esquina
talvez me jogue debaixo de um trem
fuga da fuga, pois aqui não passam estes monstros de ferro e desespero
hoje não é noite de assassinos e suicidas
melhor entrar num cinema e ver um velho filme de Godard
correndo com carros alucinados pela cidade
melhor mais dois goles de cachaça ou um malbec de Mendoza
caso sobre algum para isto
vou ligar de volta
enxotar o susto com meus ouvidos
completamente tamponados para vozes distantes
quem sabe ainda haja tempo e brote um:
__desculpe-me; foi engano
Tonicato Miranda
Curitiba, 22/Jun/2009.

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