Aposentadoria

Aposentar é sinônimo de alojar, abrigar, agasalhar, habitar, jubilar. Origina-se de aposento que por sua vez vem da poética palavra pouso. Com tantas interpretações mais agradáveis, porque é a palavra aposentadoria é usada para nos remeter ao triste ato de recolher-se inativamente aos aposentos? O que é que tem de errado com os aposentos de nossa casa? Quem disse que nossos aposentos não são tão bons quanto os dos nossos patrões? Mesmo simples e pequenos, construímos nossos humildes aposentos com muito amor e carinho. Porque não desfrutá-los?


Depois de mais de trinta anos de ausência, ocupando aposentos alheios, enfim vou exercer o direito e a satisfação de brincar de casinha.

Estou com muita vontade de pousar pousadamente em meus próprios aposentos e acarinhá-los, ajeitá-los, organizá-los.

Costurar calmamente os furos do meu pé-de-meia, pregar os botões para que habitem todas as casas das camisas esquecidas nos armários, libertar todos os personagens dos livros que ficaram presos na estante da sala, conhecer e criar outras histórias, revisitar os retratos largados naquela caixa de sapatos e organizá-los num álbum ou num slide show, para que minhas lembranças repousem eternamente em berço esplêndido enquanto eu ainda possa curtir a vida ao som do mar azul e um céu profundo.

E depois de rimar aposentadoria com poesia, ainda quero ter tempo e coragem de me aventurar em novos vôos que me levem a pousar em aposentos completamente desconhecidos. E quando eu cansar desses pousos imprevistos e tiver que fazer um pouso forçado, quero voar de volta ao meu lar e pousar e repousar tranquilamente no aconchego dos meus aposentos, como uma boa e velha aposentada feliz.

Essa não é uma excelente maneira de encarar a aposentadoria? É sim!

Mas, eu ainda vou resgatar outro sinônimo da palavra aposentadoria. É um sinônimo que deveria substituir legalmente a palavra aposentadoria (talvez eu faça uma campanha para mudar esse termo). Vejam lá nos dicionários: Aposentadoria é sinônimo de jubilação. Jubilar significa encher-se de alegria, de contentamento, regozijar. Regozijo significa grande gozo, duplo contentamento, muito prazer. Jubileu é uma indulgência concedida pelo Papa, uma honraria concedida pelas academias, uma festa de aniversário, uma grande comemoração. Jubileu em hebraico significa sons de trombetas. Quem atinge a jubilação, recebe parabéns e não pêsames.

Por isso, deixo aqui meu agradecimento a todos os companheiros de trabalho que contribuíram para que eu chegasse à jubilação com todos os meus membros, órgãos e sentidos inteiros e saudáveis e pudesse conscientemente comemorar e gozar o resto desta vida que é bonita, é bonita e é bonita.

Fiquem bem, perdoem por eu não ter sido genial, por eu não ter sido tão inteligente e forte quanto vocês mereciam que eu fosse e por eu não ter feito nenhum milagre. Apesar de ter herdado o nome de Maria, nunca fui e nem pretendo ser santa.

Muito obrigada, foi uma honra e um privilégio trabalhar com vocês e contem comigo, mesmo que não seja para o trabalho.

Aos amigos da prosa, da poesia, da música, da noite, das viagens e do papo furado, que tiveram paciência para me esperar, deixo um recado: Me aguardem! Estou voltando e não tenho mais hora pra dormir nem pra acordar.

Morcegos amarelos


Poema de Tonicato Miranda
para Marilda Confortin
a poesia quando vem a mim
vem assim
aos poucos
de manso
para mansinho
de um ganso
para o patinho
contornando tocos
desviando dos loucos
ativando meus sentidos
mudando minha cor interior
recuperando dados perdidos

a poesia quando vem a mim
bem assim
vem bailando
de vestido rodado
saia de chita e fitas
pés descalços
amassando o tablado
fandango pulsando
meu coração e o sangue
jorrando em todos os meus rios
arrastando tudo das margens
enchente forte em todas as imagens

a poesia quando vem a mim
aranha vistosa
às vezes lânguida
às vezes cândida
quase sempre cheirosa
mas pode também ser
revolucionária, guerreira
mesmo quando vem de mulher
arrebatando meu olhar e este mar
que há dentro de mim qual concha
abrigando pérolas que desconheço

a poesia quando vem a mim
vem assim
muda meu jeito
açoita meu peito
deixa-me triste ou quieto
passeando por bem perto
quase recolhido, na gruta escondido
eu e meus morcegos amarelos e belos

Tonicato é meu pareceiro de escrita de contos e cartas literárias. Tonicato foi proprietário de uma das mais curitibanas livrarias desta cidade, a Ipê Amarelo. Tonicato é arquiteto de ciclovias. Tonicato é poeta, proseador e um grande amigo.


Musica dos pássaros

A partir de uma fotografia de pássaros nos fios dos postes de iluminação pública, publicada no jornal Estado, o músico e publicitário Jarbas Agnelli compôs uma música.

Um acordo com a poesia

Façamos um trato:
Chega de maltratos.
Estamos sempre por um triz,
e nunca gozamos.

Libertemo-nos.

Eu escolho o lugar
e tu, o clima.
Entro com o vinho
Tu, com a rima.

Tanto faz:
Na tua casa
ou na minha.

Tu escolhes minhas companhias
E eu as tuas.
Entras com a lua
e eu te faço a festa.

Nos espiaremos pelas frestas
como dois voyeurs.

Seremos complacentes
com crianças e adolescentes,
mas exigiremos o máximo
dos boêmios e dos clássicos.

Então tá, minha musa.
Chega de maus tratos.
Façamos um trato:
Eu te uso, tu me usas.
Estamos livres
pra (na)morar qualquer livro
e desaguar em qualquer mar.

POETRIX

SOBRE MESA

Deu-me três beijinhos.
No quarto,
foundie.


e o Thadeu escreveu:

sou feito de curitiba



já quis morar em nova york das muitas gentes
amsterdam de todos os bagulhos
tóquio dos mil sóis nascentes
e até são paulo coberta de entulhos
mas não, fui ficando por aqui mesmo
o mundo é pequeno pra mais de uma cidade
e minha vida é tudo que tenho
curitiba entrou nela e, pra minha felicidade,
no seu ecossistema existiam potys leminskis
soldas prados trevisans mirans vellozos
ivos alices buenos buchmanns guinskis
koproskis rogérios pilares franças rettamozos
paixões backs bárbaras shoembergers hirschs
minha mãe meu pai tios avós irmãos primos
pessoas do mundo inteiro como meus vizinhos


já quis morar em outros planetas, outras galáxias
mas eu sou feito de curitiba da cabeça aos pés
corre em minhas veias seus bosques, ruas, praças
vanzolins, marildas, coronas, diedrichs, josés
em cada uma de minhas moléculas, átomos, partículas
collins kolodys lours farias tataras cardosos
leprevosts góes vulcanis smaniottos claudetes
dantes flávios recchias bettegas setos viralobos
sneges justens pryscillas arnaldos octávios bergers
e fui ficando cada vez mais parecido com curitiba
e fui algemado a essa minha alma gêmea
estrela de cada dia estendida por toda minha vida
minha mulher, minha puta, minha santa, minha fêmea
eu, do berço ao túmulo, minha caminhada inteirinha
antonio thadeu wojciechowski, polaco da barreirinha


Esse é o cara. Poeta maior de Curitiba.  Antonio Thadeu Wojciechowski , o verdadeiro polaco da Barreirinha. O meu mestre, Saboro Nossuko. Olha esse diálogo:

- Mestre,

o dia-a-dia sempre me emociona.
O sol aceso como uma lâmpada,
o céu a nos servir de tampa,
o vento que a tudo detona.
- É, essas coisas existem!
- Mas o senhor não vê beleza nelas?
- Vejo graça no que dizes!
- Como assim?
- Na inocência de tuas comparações,
na fragilidade de tuas conclusões.
- Mas tenho lido tanto, mestre.
Será que nunca vou aprender?
- Cala boca, idiota!


Duas horas após profundo silêncio,
o mestre retoma:
- O que aprendeste neste tempo?
- Só uma coisa, mestre.
- E que coisa foi essa?
- Não te interessa!
- Estás começando a virar um mestre!


O último livro do Thadeu "Saboro Nossuko", ocupou por um tempo bem curto, o lugar de honra da minha casa: a primeira pratileira de do banheiro. Quando um livro está na primeira pratileira, significa que todos os membros da família estão lendo. Quando vai pra segunda (e foi bem rápido), é porque o livro é bom e vai ser relido e quando some do banheiro, é sinal que algum visitante surrupiou porque gostou também. Obrigada pela honra de me citar no poema, Thadeu.

Corvo na manteiga

O clima de Curitiba confunde até as flores.  Estamos em outubro e as fores de maio estão cheias de botões. Parecem com a cara do meu filho adolescente explodindo em  espinhas. Não sabem se abrem ou se fecham em si. Vou colocá-las na janela para que vejam passar as cinco estações do Paulo Leminski. Quando cheguei nessa cidade lá pela década de 70, desembarquei na primeira das estações: A rodoferroviária. No mesmo dia, senti na pele as outras quatro. E quando fui procurar a casa de minha irmã na rua Mateus Leme, tive certeza que se continuasse andando em linha reta, encontraria o mar. Aquela rua tinha cheiro de mar, barulho de mar e casas de frutos do mar. Imperdoável mesmo, não ter mar em Curitiba.

Espirro. Saúde-me! O ar de inverno me inspira. Tremo de saudades. Temo estar cheia de vazios. A ausência dele pesa feito uma tonelada de plumas. Se ao menos eu tivesse cometido todos aqueles crimes. Aceitaria melhor essas penas que me dão tanta tristeza e alergia. Atchim! Penas...

Mas o que é aquilo ali no parapeito da janela do sétimo andar? (parapeito  é aquele murinho que fica na altura da cintura ou do peito e impede que as pessoas normais saiam voando pela janela). Tá vendo, alí, ao lado da flor de maio? Parece um corvo. É um corvo? É um corvo. Já vi essa cena, já li essa história... Isso não vai se repetir... Não sou mais criança, não adoto mais animais esquisitos. Mas como é que um corvo se Põe na minha janela assim tão à vontade? Eu fedo? Estou morta? Alguém me responda!  Ninguém conhece esse poema aqui? Cazzilda! Prometi não dizer mais palavrões conhecidos, então me xingo de Cazzilda. Diminutivo carinhoso, feminino de cazzo.

Abro um chat e pergunto à um amigo que fica eternamente on-line. Mente que não lembra do poema, mas responde:

- Sim, você está morta.

- Filho da mãe! Se disser que eu fedo, te deleto.

E o corvo lá, paradão, me olhando. Ele livre e eu presa. Ele presa, eu predador. Bato na vidraça e faço movimentos com as mãos para espantá-lo. Nem me dá bola. Falo:

- Vai embora! Não gosto de você! Não gosto desse poema. Aqui não é seu lugar. Sai!

Abaixa e levanta a cabeça repetidamente como se não me entendesse e perguntasse: “O quê? O quê ?”

- Você está no centro de uma capital, animal! Curitiba, Paraná, Brasil. Já passamos do ano 2000. Só tem prédio, carro e gente. Não tem nada prá você aqui. Volte para seu lugar.

Acho que vi um sorriso irônico no bico dele. Juro que ouvi ele me dizer:

- E onde é que eu encontro podridão à vontade, lixo, gente que morreu e nem sabe, como você?

As pessoas normais dessa cidade ecológica vêem andorinhas, pardais, sabiás... Os poetas desta cidade são inspirados por borboletas, andorinhas, beija-flores, pombinhas e catorritas. Porque eu tenho que ser visitada por um corvo?

- Porque você não é poeta e nem gente, sua anta!

- Olha, vou esquecer que você existe. Esquecer o que você disse. Você é só um pássaro sem teto (como eu) que migrou para a cidade grande. Pior, nem pertence ao MST. Eu, pelo menos sou sindicalizada.  Você não existe. É só uma metáfora velha, que insiste em aparecer nos meus pesadelos.  Você nem corvo é, seu urubu de merda!

Voltei a falar com aquele artista que vive no computador fazendo capas de livros. Disse-me que estava procurando água na Internet. Navegar é impreciso, respondi e sugeri que procurasse água no mundo real, na terra, usando uma forquilha de roseira. Acho que não gostou da minha sabedoria empírica. Mudei de assunto.

Reclamei do frio. Sugeriu que bebêssemos uma garrafa de um bom Corvo. Tinha que voltar ao assunto, o engraçadinho. Tudo bem.... mas o que faço com esse corvo aqui, perguntei.

- Come ele. Você é muito mole, mulher. Tem que comer carne de corvo e farofa de caco de vidro pra ver se endurece. Ninguém lhe disse isso?
- É verdade. Tinha esquecido dessa receita de sobrevivência. Acho que estou lendo e escrevendo muita poesia... Ando uma manteiga derretida ultimamente.
- Ótimo! Excelente pedida: corvo na manteiga, um bom vinho, você e eu. Topas?
- Eca! Never, never more!
- Não quer sair comigo?
- Não é isso... Não quero comer carne de corvo.
- Tá me chamando de corvo?
- Pare! Você está me confundindo.
- Ainda não, mas pretendo.

Uma semana depois, o mesmo urubu que eu insisto em chamar de corvo, entrou no apartamento de uma amiga. Quem manda morar numa cobertura? Andou pelos quartos, cozinha, entrou na banheira, perfumou-se todo com os sais de banho e encarou o marido dela. Ele é espada: passou a mão no telefone e chamou os bombeiros. Não, os bombeiros não acudiram. Isso só acontece nos filmes americanos. Trancaram o pobre pássaro no quarto do filho que não dormiu em casa. No dia seguinte, a empregada abriu a janela e ele saiu voando solene.

Fez ninho no prédio em frente ao do meu trabalho, sob uma antena parabólica. Visita-me sempre. Agradeceu as flores de maio e as violetas que coloquei na janela em sua homenagem.

Conheci sua família. Tutti buona gente. Só não aceitei o convite para almoçar, por que virei vegetariana e trago minha marmita pro trabalho: arroz, feijão, ovo frito e salada de tomate. Mas se as coisas continuarem piorando desse jeito, não sei não... ele que não insista.

Por Marilda Confortin - in Pedradas Cronicas


vejam só, o mesmo conto traduzido para IDO

IDO - Idiomo Di Omni

Ido é uma língua artificial. Uma versão reformulada e simplificada do Esperanto criada no início do século XX por uma equipa de cientistas e linguistas. Se parece muito com francês, espanhol, italiano, além do próprio esperanto e do português.
Uma das minhas crônicas, publicada no livro Pedradas,  foi traduzida pelo Geraldo, um estudioso do IDO.
Posto aqui, em português e depois em IDO, para deixar registrado essa inesperada tradução.Vá que alguem tenha a curiosidade de ler...


Vulturo en la Butro

Originale en portugalalinguo, da Marilda Confortin
Idala versiono da Geraldo Boz Junior

La klimato di Curitiba konfundas mem la flori di mayo. Ni esas en oktobro e li esas plena de butomi. Semblas la vango di yunulo plena de explodanta pustuleti. Li ne savas se li apertas o se li klosas su. Me metos li an la fenestro por ke li videz pasar la kin stacioni di Leminski(1). Kande me arivis a ca urbo, me desembarkis en la unesma: la autobus-fervoyala staciono/sezono. En la sama dio me sentis per la pelo la altra quar. E kande me iris serchar la apartamento di mea fratino, an strado Mateus Leme, me esis certa ke se me durus iranta rekte, me atingus la maro. Ita strado havas odoro del maro, bruiso del maro e diversa restorerii di manjaji del maro. Nepardonebla ne existar maro hike.

Sternuto. Salude! L’aero di autuno inspiras me. Me fremisas pro nostalgio. Me timas esar plena de vakui. Ilua absenteso pezas quale tuno de plumi/punisuri(2). Se, adminime, me deliktabis omna ta krimini, me akcetus plubone ica punisuri qua donas a me tanta tristeso e tanta alergieso. Atchim! Plumi...

Ma quo esas ito sur la pektoro-mureto dil sepesma etajo? (pektoro-mureto esas ta mureto ke restas sub la pektoro e impedas normala personi ekirar flugante tra la fenestri) . Ka tu vidas, ibe, an la floro di mayo? Semblas vulturo. Kad esas vulturo? Ya esas vulturo. Me ja vidis ica ceno, me ja legis ca rakonto... Ico ne plus iteros. Me ne plus esas infanto, me ne plus adoptas stranja animali. Ma pro quo vulturo Poe/pozas  su an mea fenestro, tale volunte? Ka me malodoras? Ka me mortabas? Ulu respondez a me! Nulu hike konocas ica poemo?  Kacilda!  Me promisis ne plus dicar konocata parolachi, do me inventis Kacilda. Diminutajo karezala di kaco(3).

Me apertas babileyo e questionas amiko qua restas sempre en la interreto. Ilu mentias ke lu ne memoras la poemo, ma repondas:

- Yes, tu mortabas.
- Filiulo de putino. Se tu dicos anke ke me malodoras, me efacos tu.

E la vulturo ibe, stacanta, regardanta me. Lu libero, me arestito/raptato(4). Lu raptato/arestito, me raptisto. Me iras an la fenestro e movas la manui por pavorigar lu. Lu semblas nek vidar me. Me dicas:

- Irez for! Me ne prizas ica poemo. Me ne vokis tu. Hike ne esas tua plaso. Irez!

Lu levas e abasas la kapo, quale se lu ne komprenas e questionas: Quo? Quo?

- Tu esas meze di chefurbo, animalo! Ni esas en 2001. Brazilia. Esas nur konstruktaji, automobili e personi. 
Esas nulo por tu hike. Retroirez a tua plaso.

Me pensas ke me vidis ironia rideto en lua beko. Me juras ke me audis lu parolar:

- Ube me trovos tante multa putraji, kraso, personi ke mortabas ma ne savas lo, quale tu?

La normala personi de ica ekologiema urbo vidas hirundi, paseri e turdi... la poeti vizitesas da papilioni, hirundi, kolibrii, kolombeti e altra bela uceli. Pro quo me vizitesas da vulturo?

- Pro ke tu ne esas poeto, nek persono, besto!
- Bone, me oblivios ke tu existas, me oblivios quon tu dicabas. Tu esas nur senhema ucelo (quale me) ke migris aden ica urbo. Plu male ke tu ne mem apartenas a MST(5). Me, adminime, esas en la sindikato.

Me itere parolis kun ita artisto ke vivas em la komputoro facanta librokovrili. Lu dicis a me ke lu esis serchanta aquo en la interreto. Navigado esas nepreciza/nebezona (6) afero, me respondis e me sugestis ke il serchez aquo en la tero, per ipsilona brancho de roziero. Me pensas ke il ne multe prizis mea praktikala saveso. Me chanjis la temo. Me lamentis pri la vetero. Ilu sugestis ekirar e drinkar botelo di bona Vulturo(7) . Ilu retrovenis al temo, la drolo. Bone, ma quon ma facos pri ta vulturo?, me questionis.

- Manjez lu. Tu esas tro mola, muliero. Tu devas manjar karno de vulturo e vitropeci por hardeskar. Ka nulu parolis ico a tu?
- Esas vero. Me obliviabas. Me pensas ke me esas lektanta tro multa poezio... Lastatempe, me esas quale fuzata butro.
- Bonega! Ecelanta komendo: vulturo en la butro, bona vino, tu e me. Volas?
- Argh! Nultempe. Nultampe itere!
- Ka tu ne volas kunvenar kun me?
- No, ne esas ico... Me ne volas manjar karno de vulturo.
- Ka tu nomas me vulturo?
- Haltez! Tu konfuzas me!
- Ne ja, ma me intencas lo.

Un semano pose, la sama vulturo iris aden apartamento di amikino mea. La blamo es elua, nam elu lojas en kovro (la maxim alta e maxim chera apartamento di edifico). Ol iris en la chambri, kokeyo, aden la balnuyo, parfumizis su per la balnosali e regardis audace elua spozulo. Ilu esas maskula viro: quik prenis la telefono e vokis la fairisti. No, la faristi ne venis. Ico eventas nur en usana filmi. Ili klefagis la kompatind ucelo en la chambro di ilia filiulo, qua ne dormis heme. En la sequanta dio, la hememployatino apertis la fenestro ed ol ekflugis solene.

Ol facis nesto sur la konstrukturo avan la mea, sub parabola anteno. Ol vizitas me freque. Ol dankis pro la flori di mayo e la violi quin me pozis an la fenestro.

Me konocis olua familio. “Tutti buona gente”. Me apene ne akceptis olua invito por dejunar, nam me ja varmigabis mea portebla manjuyo: rizo, fazeolo, fritita ovo e salado de tomato. Se la situeso duras dakadanta, me ya ne savas... plu bone ke ol ne insistez.

____________________________________
(1) En la portugalalinguo la vorto ‘estação’ signifikas e sezono e staciono. Paulo Leminski esis Curitibana poeto, qua dicis ke se on arivas a Curitiba per treno o autobuso, on povas vidar kin sezoni/stacioni en un dio. La quar sezoni e la urbala staciono por autobusi e treni.

(2) Itere la autorino jokas per vorti. Em la portugalalinguo, “pena” signifikas e plumo e punisuro e kompato.

(3) La autorino, quale multa braziliani, descendas de italiani...

(4) La portugala ‘presa’ signifikas e arestito e raptato.

(5) MST esas “Movimento dos Sem Terra”, la Movado dil Sen Tero, qua propozas rurala reformo em Brazilia.

(6) La portugala vorto “preciso” signifikas e preciza e bezona. La frazo “navegar é impreciso” signifikas navigado esas neprecisa afero, ma aludas (e ludas) pri famoza poeziajo da Fernando Pessoa, en la portugala linguo, qua dicas “navegar é preciso, viver não é preciso”, navigado es bezona/preciza afero, vivar ne es bezona/preciza afero.

(7) Corvo esas brando, di vino. La portugala vorto “corvo” signifikas vulturo.

COMO UM DYLAN DEPOIS DO OUTRO...

– Isso não é coisa que se Dylan,
mas eu adylanmito: sou um dylantante
e curto Cobain ficar me fazendo de Bob...
Afinal, Dylan-me com quem Thomas
e Roberte-ei quem és...

– Argh, Ivan! Não faça aZimmerman...

– Tá bom, então, já que like a rolling estou,
juro que este é o último dos trocadylans...

Ivan Justen


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