Metamorfose

imagem: http://www.metamorphose.co.at/

(Da série: “histórias secretas de amigos e inimigos” – por Marilda Confortin, com a colaboração e cumplicidade dos personagens envolvidos)

Era uma vez, uma lagarta chamada Ana, que sonhava ser leve como borboleta, queria ser perene como uma pedra e forte como uma mulher.
 
No tempo em que era uma lagarta, vivia se arrastando, comendo migalhas que caiam  já que não alcançava a copa das árvores, tinha medo até das poças d´agua porque não gostava da sua imagem refletida nos espelhos e vivia procurando um lugarzinho seguro para construir um casulo e criar seus filhotinhos conforme as regras da sociedade do seu pequeno mundo.

Um dia Ana encontrou um robusto arbusto que lhe estendeu a mão. Teceu seu casulo, acomodou-se lá dentro e sentiu-se muito feliz e confortável por algum tempo. Chegou a esquecer os outros sonhos.

Um dia ao acordar, percebeu que o galho havia quebrado, a casa havia caído e os cupins haviam devorado tudo o que ela amava.  Sentiu muito medo e chorou. Mas, chorou por um tempo bem menor do que o tamanho do seu medo e sua dor. Chorou um tempo de inseto. Olhou para trás e viu que o caminho do passado tinha crescido e já era muito maior que o caminho do futuro. Ficou pensando numa maneira de chegar rapidamente ao fim daquela estrada.

Pensou em meter uma bala na boca, mas só tinha bala de hortelã e já estava enjoada de ser vegetariana. Lembrou-se de que um dia quis ser borboleta e pensou que, se voasse, poderia vencer a distância com mais rapidez e recuperar o tempo perdido.

Engoliu o choro, subiu nos escombros da própria crisálida, desamassou as asas, pulou de cabeça na nova vida e sobrevoou o pequeno quintal.  

Mas, logo percebeu que suas asas rotas pelo desuso, já não eram tão fortes. As flores do jardim que durante muitos anos Ana admirava debruçada sobre o peitoril da janela de seu casulo, já alimentavam outros bichos tão ou mais vorazes que ela. Havia pouco néctar e muitos predadores.

Conheceu uns bichos grilos interessantes que lhe contaram sobre os mundos além do muro. Encorajaram-na a voar para mais distante.  

Subiu no mais alto galho, reuniu forças e pulou.  Conheceu a fúria dos ventos, o frio da noite, a fome dos pássaros, a escassez das flores, a crueldade dos humanos, a idade da terra e descobriu que o céu não era azul, talvez nem existisse.

Deu-se conta de quão efêmera e frágil era a vida de uma borboleta. Será que era mesmo preciso ter asas para voar? Porque ela não se sentia tão leve como imaginava ser uma borboleta?
Depois de um tempo, se deu conta que, de tanto lutar para ser livre, seus sentimentos haviam endurecido ela se transformara numa rocha.

Sentiu-se estranhamente aliviada com essa nova metamorfose. Afinal, um dia ela sonhou ser pedra.

Pedras não precisam respirar, nem comer, nem voar, nem reproduzir, nem pensar, nem se explicar, nem defender-se de predadores. Pedras não precisam ser leves, nem jovens, nem preciosas, nem bonitas. Pedras são silenciosas e sábias. Guardam segredos e sabem a história dos tempos. Não necessitam das necessidades humanas.

Encarou o medo dos espelhos e rolou para a beira de um rio que passava distraído em sua frente.

Ana viveu um longo tempo de pedra, contemplando o nascer e o morrer dos dias e de tudo que nasce e morre dentro dos dias. Ouvia histórias de águas passadas, deixava o tempo lapidar seu corpo, sua mente e, sem resistir deixava-se levar pelas horas vadias.  Adormecia ouvindo canções de ninar das cachoeiras.  Sentia-se livre e leve como nunca.

Numa manhã clara de inverno, uma imagem refletida nas águas do rio chamou sua atenção. Parecia tão familiar... Forçou os olhos quase cegos para enxergar melhor. Qual não foi seu espanto, ao reconhecer seu próprio rosto estampado naquelas águas.
   
Ana havia enfim, se transformado numa mulher. Estava no jardim de uma clínica. Inclinou-se um pouco mais para ver sua imagem. Foi quando a cadeira de rodas que a manteve inerte como pedra por muitos anos moveu-se e ela caiu dentro do lago.

Fechou os olhos e inspirou profunda e calmamente sua imagem refletida nas águas.

Tudo acabou como sonhara. 

A borboleta cumpriu seu ciclo.  
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