Garotinha, sempre garotinha



Por Marilda Confortin e Tonicato Miranda
Marluci tinha treze anos quando abriu uma universidade numa área rural da cidade, perto de sua casa. Bicho do mato, curiosa, foi até lá, andou pelos corredores, espiou as salas de aula cheias de adultos bem vestidos e comportados. Todos os móveis eram novos e bonitos. Bem diferente do ambiente pobre da escolinha pública que frequentava.
Uma das portas estava semi-aberta. Entrou. Parou estupefata na frente da enorme mesa de imbuia maciça. Atrás da mesa havia uma imensa e ameaçadora cadeira de couro escuro vestindo um paletó cor de vinho. A grande cadeira intimidava duas cadeirinhas vermelhas encolhidas em frente à mesa. A garotinha partiu em defesa das duas:
Olha aqui, Dona Cadeirona, não brigue com as cadeirinhas. Elas são criancinhas ainda e estão aqui na escola pra aprender e não pra apanhar. A senhora é uma cadeirona feia e má! Eu não tenho medo de você! Não tenho rodinha, mas tenho boca, pé, mão e vou quebrar você no meio assim Ó!...
O diretor da universidade, retornando à sua sala,  parou na porta e ficou assistindo aquela cena hilária da garotinha batendo na sua cadeira.
─ Sabe o que vou fazer com você, Dona Cadeirona? Vou trancar você naquele banheiro e você vai ficar de castigo até aprender a não maltratar as cadeirinhas menores...
O homem deu uma grande gargalhada e a menina caiu no chão assustada.
─ Ô garotinha, quem lhe deu permissão para brincar na minha sala com minhas cadeiras?
─ São do senhor? Todas estas cadeiras?  
─ Sim. Mas a minha preferida é a Dona Cadeirona. De onde você saiu, criaturinha?
─ Ah, eu moro aqui perto, na roça. Tem alguma coisa pra eu fazer aqui nessa tal de universidade?  
─ Hummmm...  Você sabe fazer café? 
─ Sei!  – respondeu, Marluci.
Mentira. Nunca fizera café. Em sua casa só se tomava chá de erva mate com leite. Mandou-a fazer um cafezinho bem forte. Se ficasse do jeito que ele gostava, lhe daria um emprego.
Saiu feliz e saltitante. Na cozinha deparou-se com um fogão a gás. Um monstro. Não tinha fogão a gás em sua casa. Não sabia usá-lo. Caiu num choro compulsivo. Um professor apareceu na cozinha para tomar água. Penalizado, ensinou-a usar o fogão e fazer café. Equilibrando a bandeja, deslumbrada com as “xicrinhas” que pareciam brinquedo de criança rica, chegou à sala do diretor. Mais da metade do café já derramara.
O diretor disse que ela não servia para fazer nem para servir café e mandou-a embora. A garotinha se agarrou na perna do homem e começou a chorar novamente. Como ela não arredava o pé nem largava sua perna, perguntou se ela sabia usar um espanador. Pela expressão nos olhos arregalados, não sabia nem o que era um espanador, aquela menina.  Pegou sua mãozinha e conduzi-a pelos corredores da universidade em direção à biblioteca. Ela engoliu o choro rapidamente, restando apenas um soluço.
Marluci era uma coloninha muito miúda e ingênua. Parecia ter menos de dez anos. Vestia um calção de chita florido com elástico nas pernas. Nos pés, uma alpargata azul-marinho, bordada com miçangas coloridas. Camiseta branca, surrada, com o símbolo de uma escola municipal bordado na altura do peito. Cabelos muito brancos e lisos acima dos ombros, franjas cortadas retas. Enxugava com raiva as incômodas lágrimas usando as costas das mãos encardidas.
Chegando à biblioteca, paralisou. Nunca vira uma sala habitada por livros. Não teve coragem de entrar.
─ É aqui. – disse o diretor, empurrando-a para dentro da biblioteca. Tire todos os livros daquelas estantes, espane e coloque-os de volta, na mesma ordem. Volto mais tarde para ver se você merece o emprego.
Demorou a tarde inteira e só espanou a primeira prateleira das dez estantes. Começou justamente pela prateleira dos livros de filosofia. No fim da tarde o diretor flagrou-a imersa, sentada no chão, lendo “Assim falou Zaratustra”, de Nietzsche. Arrancou o livro da sua mão e gritou:
─ Eu mandei você tirar o pó, e não ler os livros! Você não pode mais vir aqui. Não é ambiente para crianças. 
Aquele professor caiu do céu novamente. Interferiu dizendo ao diretor que podia deixá-la sob sua responsabilidade. Ele ensinaria o trabalho e ficaria de olho nela.
A biblioteca foi seu primeiro emprego. Os livros, sua primeira paixão.
A segunda paixão foi Renato, o bendito professor de Química que sempre aparecia para salvá-la das encrencas. Ele tinha 25 anos e ela 13. Aos 14 ele a ensinou beijar na boca. Aos 15, ela apaixonou-se por Demian, um personagem de Herman Hesse. Aos 16 ela agrediu a tapas e ponta pés a esposa do diretor da universidade porque a flagrou se insinuando para o seu querido professor.
Foi sumariamente demitida. Mas o professor a socorreu novamente. Contratou-a como auxiliar em seu escritório. Assumiram o namoro para espanto daquela pequena e preconceituosa cidade. Ele era descendente de negros, nascido em Recife, tocava o “Anônimo Veneziano” no piano e recitava poemas de Augusto dos Anjos. Deu o primeiro e único livro infantil que Marluci ganhou na vida: “O Pequeno Príncipe”. Ensinou-a amar “Os Beatles” e “Os Rolling Stones”. Apresentou-a aos clássicos da literatura e da música. Ensinou-a tocar “O Bife” no piano e riam como duas crianças. Era cabeludo, fumava, tomava whisky e tinha a maior motocicleta da cidade. Era fiel, carinhoso e a mantinha virgem, pura de corpo e mente. Casariam quando ela atingisse a maioridade, dizia ele.
Quando completou dezoito anos, levou-a para um passeio até um recanto florido às margens do rio Uruguai.  Depois de muito beijá-la colocou uma linda aliança de noivado em seu dedo e disse que precisava confessar um segredo. Falou que era homossexual e que não poderia casar com ela, apesar de amá-la mais que tudo na vida.
─ Puxa, que bom! ─ Disse ela. Eu também te amo muito, mas não quero casar ainda. Quero conhecer outras cidades, outros países, outras culturas. Depois a gente casa, tá?
Ao jeito deles, fizeram amor.
Um mês depois ela saiu da pequena cidade, foi para a capital e sobreviveu algum tempo com a ajuda financeira que ele enviava, até conseguir emprego numa empresa de engenharia.  
Ele lhe escrevia uma carta de amor por mês. Visitava-a duas vezes por ano para saber estava tudo bem.
Passados seis anos, Marluci devolveu a aliança de noivado que Renato lhe dera no dia que disse que não se casariam. Enviou por Sedex, dentro de uma caixinha de madeira que ela mesma pintara, forrada de veludo branco, com uma carta perfumada, escrita com nankin sobre papel vegetal, agradecendo tudo o que ele tinha feito, dizendo que não precisava mais da sua proteção. Formara-se na faculdade e iria se casar com um bom homem. Convidou-o para ser seu padrinho de casamento. O professor estava tão bonito, tão elegante, tão gentil. Ela quase desejou que ele fosse seu noivo novamente.
--- 35 anos depois ---
Marluci chegou ao trabalho muito agitada, com a respiração ofegante. 
─ Pronto está feito!
─ Está feito o quê? – perguntou a colega diante daquela frase tão exigente de complemento.
─ Assinei os papéis da aposentadoria – disse Marluci.
─ Mas já? E como vão ficar aqueles projetos que...
Marluci não ouviu uma só palavra que a colega disse.
─ Ih, caramba, deixei um amigo me esperando. Tchau Raquel. Vou sumir por uns tempos. Assuma meu lugar aí.  
Assim disse Marluci pegando a bolsa e voando porta afora. De longe avistou o amigo Robermeio. Ele era uma figura. Meio louco, meio excêntrico, meio confuso.
Ao se aproximar, constatou que Robermeio não tinha nada de meio. Era um sujeito muito extravagante.  Vestia um paletó azul marinho, com o bordado de uma âncora enrolada por um magote de corda muito bem feito. Os botões do paletó eram em pano de um azul mais claro. O “blazer” estava sobre uma camiseta branca de algodão de primeira linha, caindo por sobre uma calça de sarja bege claro, muito elegante. No entanto, no pé um sapatênis branco cobria uma meia multicolorida, dessas usadas pelos palhaços, cheia de anéis, cada um de uma cor. Era seu jeito meio hilário de ser. Era sua maneira meio irreverente de protestar contra a sociedade a quem sempre chamava de Locomotiva das Almas.
Robermeio tinha uma insólita profissão numa empresa transnacional: Era botânico nuclear. Profissão esta que associava a Física Quântica à Botânica. E era muito bom nisso, tendo recebido vários prêmios internacionais. 
Mas o que ligava os dois não era a profissão e sim a música, poesia e a paixão pelo vinho.
─ Então vamos? – perguntou Marluci fingindo não perceber as meias coloridas e o exótico lenço de bolinhas que ele usou para enxugar o suor.
E foram no rumo de um supermercado, em busca de pão, mortadela, queijo e vinho. Levariam tudo para uma pequena casa que alugaram por uma semana e de onde somente sairiam após terem cumprido a promessa de compor cinco músicas.
─ E se não conseguirmos compor as cinco músicas? – Perguntou Robermeio.
─ Escuta, você assistiu o filme o “Anjo Exterminador”, do Luis Buñuel? Não?! Pois é, fiz um pacto com “o coisa ruim”. Enquanto nossas composições não acabarem ele não abrirá a porta, vamos ficar lá trancados.
Vendo Robermeio meio preocupado, meio querendo roer a corda do bordado do paletó, Marluci acrescentou:
─ É mentira, homem. Isto é apenas literatice da minha cabeça. Vamos embora.
Pactuados ou não com o “coisa ruim”, a verdade é que os dois ficaram exatos treze dias trancados na pequena casa.  
Robermeio tinha habilidade natural para o desenho e paixão por bicicletas. Entre uma música e outra regada com muito vinho ele lançou uma ideia:
─ Marluci, vamos fazer um projeto de uma cidade sem avenidas nem automóveis? Existirão somente ciclovias e trilhas para andar a pé. E todas as empenas cegas receberão haicais e poetrix. E nos cruzamentos ou interrupções dos caminhos terão quiosques com livros de graça.
─ E vinho...
─ Vinho, pão, queijo e bancos de ferro sob os Ipês amarelos. 
─ Você ainda não desistiu dessa história de Ipê Amarelo, Robermeio? Esquece os Ipês. Vamos plantar árvores frutíferas. Laranjas, pêssego, banana, pêra, maçã... Vamos encher a cidade de maçã que é pra Deus não precisar expulsar ninguém do nosso paraíso. E as trilhas serão cobertas por parreirais para fabricação de vinho.
─ Boa! E as praças serão enormes hortas de legumes, verduras e plantas medicinais.  
Robermeio desenhava a cidade cicloviária com centenas de modelos de bicicletas. Com uma roda, duas, três; duplas, triplas; altas, baixas; desmontáveis, dobráveis; com e sem bagageiro; com e sem proteção contra o vento; com um pedal só para os pernetas; com um guidão giratório para os manetas. Marluci só apontava os defeitos e escrevia pequenas poesias para colar nas placas e nas empenas.
─ Rob, tem que inventar alguma coisa pra substituir esse capacete ridículo dos ciclistas.  
E ele desenhava dezenas de capacetes, cada um mais estrambótico do que o outro.
─ Este tá legal, Robermeio. Agora projete uma estação de rádio que só vai transmitir música, poesia e cultura para a cidade toda. É pra isto essa antena o capacete, não é?
─ Bom, eu tava pensando num pára-raios, mas já que você falou em música, dá pra fazer uma adaptação...
─ E se chover, Rob?
─ Capas de chuva, ora. De todas as cores, estampas e tamanhos.
─ Hummm... E proteção para a bunda? Esses selins machucam pra caramba.
E Robermeio projetou vários selins ortopédicos e roupas almofadadas.
─ E os cegos?
─ O que tem os cegos, Marluci?
─ Como é que eles vão andar de bicicleta, homem?
─ Engatando sua caçambinha ou bicicleta de uma roda só na traseira de quem passar. Não viu os modelos que criei aí para os caroneiros?
─ Ah, tá...  E se for um ladrão pedindo carona só pra roubar a bicicleta?
─ E porque alguém iria roubar uma bicicleta se a prefeitura vai fornecer esse transporte para todos os moradores?
─ De graça?
─ Não totalmente de graça. Terá uma pequena taxa incluída no IPTU. Dará direito ao pão, leite...
─ Como assim?
─ Marluci, nossa cidade será muito saudável. Todos comerão frutas, legumes e verduras sem agrotóxico, colhidas nas ruas e praças. Não haverá poluição provocada por combustível. Andarão de bicicleta fazendo exercícios naturalmente. Ouvirão música e poesia o tempo todo. Serão cidadãos pacíficos, cultos e saudáveis. A prefeitura não gastará quase nada. Então porque não garantir pão, leite, água, vinho, escola, moradia e transporte com igualdade para todos os cidadãos?
─ ...tá certo. Você é um gênio, Rob. Vamos fazer mais uma música para tocar na nossa rádio?
Professor Renato chegara a Curitiba e estava parado na esquina da casa de Marluci. Não saberia precisar quais daquelas dezenas de janelas eram as do apartamento dela. Desistiu. Pelo menos por hoje não procuraria por Marluci.
Aposentara-se de tudo, menos do seu passado. Ela continuava a ser sua garotinha. Será? Seria ela a sua base? Ou ela seria seu ácido? Já se passara trinta e cinco anos. Ele agora tinha suas bengalas. Precisava delas para continuar trilhando a pele do planeta.  
Em sua vida tudo tinha sido provisório mesmo durando décadas. Menos o amor por aquela garotinha que não sabia fazer café. Que cena! “O cadeirona, será que você não sabe que na sua frente tem um monte de cadeirinhas que precisam de proteção?“ Que cena! – voltou a repetir para si. “Ai, quantas saudades! Chega. Chega! Não vou ficar aqui parado olhando para essas janelas, viajando no tempo de costas. Preciso descansar. Curitiba é muito distante de Recife. Amanhã...”
... o amanhã chegara. Hospedara-se num hotel na Rua Visconde do Rio Branco. Jamais visitara Curitiba. Queria saber se era mesmo fria. Pela temperatura naquele momento nada podia adiantar, fazia calor. Afinal ainda era verão e o “El Niño” andava estacionado por aqui como uma grande nave, semelhante aquela do filme do Orson Wells.
Nada tinha avisado a sua garotinha quanto à data de chegada. No último email enviado quatro meses antes de seu computador quebrar, dissera a ela que viria no verão, entre Fevereiro e Março.
O recepcionista do hotel disse a Renato, que todo fim de semana, passava uma mulher meio louca perguntando se ele estava hospedado naquele hotel e repetindo a pergunta em todos os hotéis do centro de Curitiba.
Era bem a cara da sua garotinha fazer isso...  Resolveu deixar um bilhete e sair para um passeio como todo bom turista, para Santa Felicidade. Estava interessado em conhecer a Festa de São Cristovão. E lá se foi na barriga de um ônibus expresso, no rumo do Campo Comprido, seguindo a orientação do porteiro do hotel.
Marluci andava pela rua falando sozinha: “E se aconteceu alguma coisa? E se ele adoeceu? E se morreu? Não, ele não faria isso...”
─ Tem alguém chamado Renato Dantas hospedado aqui neste hotel?
─ Pela última vez: NÃO TEM NINGUÉM COM ESTE NOME HOSPEDADO AQUI, minha senhora!
Desde Fevereiro ela fazia a mesma maratona. Todo santo sábado percorria os dez hotéis centrais a procura do seu professor de Química. Observava tudo e todos com olhos de primeira vez. Recolhia papeizinhos amassados, palitos de picolé e outros pequenos objetos jogados no chão como quem limpa a casa para receber uma visita importante.
No sábado anterior, o coração quase saltou pela boca ao ver uma pessoa, que de costas, parecia ser “o seu” professor. Correu e agarrou o braço do rapaz.
─ Larga sua doida!
Sentou-se num banco da Rua XV de Novembro, decepcionada e exausta. Percebeu que parara no tempo e esperava encontrar um homem de trinta anos. Seu professor devia ter agora sessenta e cinco anos de idade e ela já passara dos cinquenta.
Só faltavam dois hotéis da lista para conferir. Marluci entrou no penúltimo já esperando que o recepcionista chamasse a segurança, como fez no sábado anterior, depois da sexta vez que ela estivera lá insistindo para ver o registro dos hóspedes. Mas, ao vê-la, o recepcionista abriu um imenso sorriso e veio em sua direção balançando um envelope.
─ Ele está aqui! Ele está aqui! E deixou um bilhete.
As pernas amoleceram. A visão turvou e Marluci foi ao chão. Acordou minutos depois no sofá do saguão. O recepcionista massageava sua mão carinhosamente e abanava seu rosto. Ela abriu o envelope tremendo e leu o bilhete: “Querida garotinha, cheguei. Espere-me aqui. Sempre seu, Professor.
Num misto de riso e choro, desandou a beijar o bilhete falando “Meu professor querido, meu professor querido”. Pulava na ponta dos pés como se ainda tivesse treze anos. Os funcionários também riam e abraçavam-se emocionados. Uma das camareiras serviu-lhe um chá de camomila. Outra trouxe um espelho e um batom. O hotel inteiro sabia da sua história de amor.
Professor Renato chegou trazendo um ramalhete de flores do campo e um cacho de uvas maduras. Andou até o balcão da recepção e, como se ouvisse um chamado, virou-se mergulhando seu olhar nos olhos de Marluci.
A cena congelou como nos filmes de Fellini. Ninguém se movia ou respirava. Não havia um ruído. Os automóveis, as pessoas na rua, a cidade toda estancou. Um minuto? Dois? Cinco? O cacho de uvas caiu das mãos do professor em câmera lenta. Ao tocar o mármore branco do piso alguns grãos soltaram-se e rolaram até os pés de Marluci desenhando um caminho cor de vinho. Ela levantou-se, respirou profundamente, fechou os olhos e flutuou em sua direção, murmurando:
─ Meu professor querido!
Ele, de braços aberto recebeu-a repetindo
─ Minha garotinha!
Naquele mesmo sábado, Robermeio estava na esquina da Rua Coronel Dulcídio com a Rua XV de Novembro. Pretendia comprar um cachorro para presentear à Marluci. Não perguntara se ela queria. Era mesmo assim, não gostava de rodeios. Se ela não quisesse devolveria o cão ao estabelecimento comercial sem pedir nada em troca.
Foi até a loja identificou o cachorro peludinho. Não saberia dizer qual a raça, nem tampouco quis sabê-la. De imediato chamou-o de Ypsilone porque o cãozinho de pelo todo branco tinha na ponta da cauda uma bifurcação escura que parecia um “y”. Saíram os dois da loja. Ele com uma ponta da coleira na mão e o cão com a outra extremidade no pescoço. Treze passos depois viu que não daria certo. O cachorro era muito pequeno, seu passo muito grande. O cão era um bebê. Pegou-o no colo e seguiram a pé em direção a loja onde deixara a bicicleta para uma revisão.
Minutos depois, estava ele pedalando por ruas do centro de Curitiba com um cãozinho dentro de uma cestinha, presa ao guidão da bicicleta. Rodaram um pouco meio sem destino até que parou na Praça Osório. Ali amarrou a bicicleta numa árvore, tirou da mochila uma corda com 1,50 m de extensão, colocou o cachorro na mochila e esta às suas costas, foi até uma palmeira esguia que tinha surpreendentemente crescido ao lado de um carvalho, tirou seu sapatênis e pôs-se a subir a árvore ao modo dos nativos do litoral. Subiu até atingir a altura de um galho do grande carvalho. Ali passou com cuidado da palmeira para a árvore vizinha, amarrou a corda na cintura e no forte galho da sua hospedeira, recostou-se no tronco que subia ainda uns bons seis metros para o alto, tirou o cachorro da mochila e alimentou-o com uma pequena mamadeira de leite que havia comprado na loja.
Depois da sua breve ação paterna pegou o celular e ligou para Marluci.
─ Você precisa vir aqui. Tenho uma grande surpresa.
─ Mas estou ocupada. Tem uma pessoa que veio de muito longe para me ver. Vou almoçar com ele.
─ Venha agora, você não vai se arrepender. Traga esta pessoa também. Venha já!
─ Está bem, vou tentar.
Aquele venha tão peremptório no final do diálogo não deixava espaço para dúvidas, tinha de ir até lá.
Marluci e Renato se dirigiram a pé até a Praça Osório. A avalanche de perguntas dela nem dava tempo a ele em conceder as respostas. Ficou sabendo de forma breve que ele também se aposentara, tendo lecionado na Universidade Federal de Pernambuco; casara por apenas quatro anos, mas não tivera filhos; se dedicara nos últimos anos a Astronomia, depois se tornara membro da Sociedade Brasileira de Ufologia, apenas por encanto com o espaço estelar, mas sem muita convicção nos OVNIS. E mais não soube por que chegaram a Praça Osório e se puseram a procurar Robermeio. Foi ele quem os viu primeiro.
─ Ei! Olhem para cá!
Marluci rodou para um lado, rodou para o outro na sua saia de chita homenagem aos tempos de infância pobre e ao professor sem conseguir entender de onde vinha aquela voz, apenas identificada pelo timbre como sendo do amigo botânico. Sabia que ele não iria mais chamar. Fazia parte de sua personalidade mostrar-se e logo se esconder, não importando se o achassem ou não.  
Procurou-o alguns minutos, agarrada ao braço do seu professor, que calado, a acompanhava sem nada dizer, carregando no rosto um ar de idiota surpreendido e ao mesmo tempo com um ligeiro sorriso de tolerância amigável. Em certo momento ela colocou as mãos na cintura e olhou para o alto. E lá estava Robermeio, balançando-se pendurado na árvore, segurando o cãozinho.  
─ Desça daí já, ô maluco!
─ Não! Estou “de varde!”
─ Está nada. Desça já daí! Você quer me deixar nervosa? Veja, estou acompanhada de um amigo que veio me ver lá de muito longe...
─ Humm!!! Não, não vou descer. Vocês é que têm de subir.
─Olha que eu chamo o Corpo de Bombeiros!
Marluci sabia que Robermeio odiava todos os homens de farda. Para ele eram todos lacaios dos podres poderes. Todos apaniguados da ditadura dos conquistadores. Ele preferiria se jogar lá do alto da árvore, a obedecer a ordem de um fardado.
Desceu, deu o cachorrinho à Marluci e depois dos cumprimentos e da apresentação, sacou uma pequena faca de ponta, fez menção de cortar a própria garganta, mas se virou ligeiro e jogou a faca ao encontro da árvore onde tinha se hospedado por hora e meia. Caminhou até o pé de carvalho e esculpiu no tronco “Há mar no meio”. Dobrou a faca, colocou-a no bolso e saíram os três rumo ao Ristorante Spaghetto.
Pediram um penne a marinara com azeitonas pretas, acompanhado de um bom malbec Argentino, da Região de Mendonza, o vinho preferido de Robermeio.
Em certo momento, enquanto aguardavam a comida e o retorno de Robermeio que fora ao banheiro, o Professor tomou a mão de Marluci, colocou em seu dedo aquela mesma aliança de trinta e cinco anos atrás e perguntou:
─ Quer casar comigo, garotinha?
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