Kseniya Simonova

Kseniya Simonova

Animação da invasão da Alemanha na Ucrânia durante a Segunda Guerra Mundial, usando os dedos e uma superfície com areia. Indescritível! Vale a pena conferir outros videos dessa moça no youtube.


Poetrix


Há duas semanas, fui procurada pela Mariana Braga, repórter do Jornal Comunicação da Universidade Federal do Paraná.  Queria conhecer o Poetrix,  Não nos conhecíamos. Marcamos na frente da sala de empréstimos da Biblioteca Pública. Cheguei uns quinze minutos antes e me plantei lá a espera da jornalista. Fazia um frio inesperado como só Curitiba sabe fazer.

Estudantes alegres, cobertos por casacos largos e cachecóis coloridos, amarrados com nós criativos, diferentes, entravam e saíam da Biblioteca aos pares, trios, montes, tropeçando em mim, sem me ver.
Senti saudades de quando eu freqüentava a Biblioteca Pública e também achava que o mundo era só meu e de quem estivesse comigo naquele instante.

Quinze minutos depois do horário marcado, o saguão esvaziou-se e ficaram só três pessoas. Uma garota que já estava lá conversando com um rapaz desde o princípio, o guarda e eu. Não deve ser ela, pensei. Parei de observá-la. Depois de um tempo, ocorreu-me que eu poderia estar na sala errada. Dancei, pensei. Já estava saindo quando vi um enorme ponto de interrogação na testa daquela mocinha.

- Mariana? 
- Marilda?

Sim, éramos nós.  Escolhemos uma mesa e conversamos muito, sem pressa. Seus olhos brilhantes e curiosos lembravam o olhar de meus filhos, pequenos, quando eu lhes contava uma história nova. Ela ainda não estava contaminada pela pressa dos jornalistas, pela limitação das laudas, pelos cronogramas e pelas matérias encomendadas. Ela escolheu escrever uma matéria sobre Poetrix. Uma poesia nova. Uma nova história. Que maravilha! E ainda melhor: Disse-me que faria um “tubo de ensaio”. Imaginei uma sementinha de poesia germinando dentro de um tubinho de vidro, crescendo, espreguiçando-se como um pé de feijão, sob o olhar deslumbrado de uma criança. É isso que ela faria. Depois de reunir a informação necessária, ela mesma se submeteria à experiência de produzir poetrix e contar aos outros quais foram suas dificuldades, facilidades, sensações e emoções.Mariana revelou-se uma poetrixta. Leiam abaixo a matéria e o resultado do "tubo de ensaio".


A partir daqui, é com ela. Obrigada, Mariana por  nos presentear com essa experiência.  


Poetrix, um terceto que nasceu no Brasil

Gênero poético tem apenas uma década e é muitas vezes chamado de "filho bastardo" do Haicai

Reportagem: Mariana Braga
Edição: Carolina Goetten 
matéria publicada originalmente em:
http://www.jornalcomunicacao.ufpr.br/node/8208

              

sol cores e flores
na Festa da Primavera
saia da menina
(Débora Novaes de Castro)

Al dente 
 
Não há futuro ao ponto
Quando o presente
É mal passado
(Marilda Confortin)

 
À primeira vista, um leitor disperso incluiria os dois tercetos acima no mesmo tipo de classificação, pela forma aparentemente semelhante como foram construídos graficamente. Mas basta uma reflexão um pouco mais atenta para notar distinções essenciais nos poemas, que são enquadrados em gêneros diferentes de poesia: Haicai e Poetrix, respectivamente.

“O Haicai é um terceto estruturado há milhares de anos e tem formatação de 5-7-5, com no máximo 17 sílabas poéticas”, descreve a poeta Marilda Confortin, membro do Movimento Internacional Poetrix. A métrica 5-7-5 correlaciona versos e sílabas: o primeiro verso, no haicai, deve ter cinco sílabas poéticas, seguido de um segundo com sete e o terceiro, conclusivo, com cinco. Dentro da categoria minimalista, o Poetrix não pode ultrapassar 30 sílabas poéticas, mas não determina normas para a distribuição destas sílabas dentro do poema. “O objetivo é dizer muito com o mínimo de palavras”, explica Marilda.

A partir desse entendimento, os tercetos de Paulo Leminski, por exemplo, são erroneamente chamados de haicais, porque a essência do gênero poético milenar, oriental e de métrica rigorosa não era seguida à risca. No artigo Poetrix: um jeito brasileiro de fazer tercetos, a escritora Lilian Maial explica que o haicai se consagrou como poema descritivo: enquanto tal, costuma identificar a estação do ano – no Japão, chamada de kigo – em que acontece o momento retratado nos versos.

Outras diferenças
A poeta Kathleen Lessa explica algumas diferenças fundamentais entre as duas vertentes poéticas.

Quanto ao tema

O haicai versa sobre a natureza: estações do ano, flores, frutos, animais, tempo, clima, mudanças, etc. Ele “acontece” no momento em que é escrito. É como um flash fotográfico, apresentando a inspiração que o autor captou ao observar uma cena, obrigatoriamente no tempo presente.
O poetrix tem temática livre e pode acontecer no passado, presente ou futuro 

 
 
Quanto ao narrador

No haikai, o autor não interfere na ação. Só observa e narra o momento
No poetrix o autor pode aparecer, interferir, falar de si, expor sentimentos.

Quanto às rimas

No haicai tradicional, a rima não é admitida (a menos que seja interna, no verso);
No poetrix, a rima é opcional.

Ao contrário do Poetrix, que instiga, o haicai não deve deixar dúvidas para o leitor. Segundo Marilda, é um terceto contemplativo. “Se ele diz que as folhas estão no chão, elas realmente estão no chão”, assinala a escritora. “O poetrix é mais nosso. É mais livre”.

Os tercetos tropicais foram organizados pelo poeta baiano Goulart Gomes no gênero Poetrix. Marilda explica que o novo gênero de terceto, criado em 1999, admite ironia, metáforas, neologismo e estrangeirismo, não aceitos em haicais, além de ser urbano e atemporal. A etimologia deriva de Poe (poesia) e Trix (três).

Ter definido um novo gênero de terceto não significa que existe uma guerra entre haicaístas e poetrixitas. “Nós não somos uma frente de combate ao haicai. Temos muito respeito. O poetrix é um terceto que resolveu assumir sua diferença e não ficar brigando”, assinala a poeta.

Existem outros detalhes que distinguem os dois tipos poemas. O haicai não admite título, enquanto este é muitas vezes um complemento do Poetrix. “Ele [o poetrix] conversa muito com todas as mídias”, ressalta Marilda.

 O mínimo é o máximo

Pelas figuras de linguagem e pluralidade de sentidos, não basta que alguém leia um poetrix em voz alta para outra pessoa. Muitas vezes o terceto lança mão de jogos de palavras que só podem ser compreendidos através da leitura, como no caso do poema (con)tato, de Marilda Confortin:

(con)tato

dedilho improvisos
 teu corpo jaz(z)ido
 acorda blues

A nova vertente poética conquista cada vez mais adeptos. O Poetrix já fez surgir mais de cem mil poemas na internet, realiza prêmios às melhores poesias e começa a se tornar referência literária no Brasil e no mundo. Nos versos, trabalha-se a intensidade literária, os termos non-sense, a crítica, o erotismo, a intertextualidade - o máximo de conteúdo em até 30 sílabas poéticas.

Movimento Poetrix

“O hai-kai é uma pérola; o poetrix é uma pílula”. É assim que o coordenador do Movimento Internacional Poetrix (MIP), Goulart Gomes, distingue o recente gênero de poesia. Ele explica na Bula Poetrix que esse tipo de poema é "um projétil em direção ao alvo”.

A Bula (uma espécie de beabá Poetrix) surgiu depois de a novidade confundir alguns leitores e poetas que pediram por uma organização das regras estruturais do gênero de poema. Além da regulamentação das características que devem estar presentes no Poetrix, Goulart Gomes lançou O MIP, que surgiu em 2000 e tem o objetivo de divulgar os poemas e seus autores.

Goulart é professor, mestre e doutor em Literatura e autor premiado. Mas embora o fundador do movimento seja envolvido com ambiente acadêmico, isso não é regra entre os poetrixistas: o Poetrix é arte de qualquer profissão. “Existem professores, mas também médicos. Eu sou analista de sistemas”, conta Marilda Confortin. Para ela, poesia é para todos os bons leitores. Alguns desses poetrixistas possuem poemas publicados nas antologias Poetrix, que ano passado chegou à 3ª edição.

O Poetrix já é rebelde por sua própria essência, e dentre os próprios poetrixistas houve quem se manifestou para ampliar as características do poema, que são aceitas pelo MIP. Carlos Fiore criou o Tautotrix, baseado no tautograma. Ou seja, é um Poetrix que se utiliza de palavras que começam pela mesma letra:

Pulsação

Podem pintar poemas,
Prosas, poesias, palavras.
Pessoas pensam. Pulsam.

Existem outras formas múltiplas desse gênero de poema, como o Duplix criado por Pedro Cardoso e Tê Soares, que apresenta dois Poetrix se entrelaçando através da intertextualidade.



A experiência da repórter Mariana Braga como poeta no Universo Poetrix
http://www.jornalcomunicacao.ufpr.br/node/8210
 

Poetrixando na prática

A sensação de construir versos no formato Poetrix é tão instigante quanto a de lê-los

Poetrixar
Mariana Braga

eu (ar)risco versos
mas algumas palavras f o   g     e          m
perdem-se nas inspirações

Sentei-me à escrivaninha para escrever meus próprios Poetrix, após conversar com a poeta Marilda Confortin na Biblioteca Pública do Paraná e ler Lua Caolha, sua coletânea de poemas do estilo. O amor com que ela se referia ao Poetrix me cativou. Ao folhear diversos livros e arrastar a barra de rolagem de incontáveis sites sobre a vertente poética, fiquei fascinada com os efeitos que esses pequeninos tercetos atingem. Foi quase viciante. Lia um e corria para outro, enquanto algumas ideias me surgiam à mente.

Achei que minha missão seria dizer muito com poucas palavras, mas colocar sentimentos em apenas três versos não é o mais difícil. Poetrix exige muito além da palavra em si. E, pequeno, lança mão de uma linguagem na sua maior intensidade e clama por ousadia ao utilizar todas as ferramentas linguísticas possíveis.

Por ser recente, alimenta-se de todas as mídias, como explica Marilda. Procurei aplicar aos meus poemas imagens que representassem na maior dimensão possível os meus sentimentos ou interpretações. Às vezes, podem aparecer imagens ou sons. Mas boa parte dos poetrix apresentam letras entre parênteses ou mudanças sutis no texto para explorar o sentido da palavra. Utilizei em um poetrix a mudança de tamanho da fonte:

Cidade sou riso?

esconde o sol na manga
o curitibano
frio

Nesse poema, registrei uma impressão que tive ao passear pela Rua XV em uma cinzenta manhã de sábado. Apesar de descrever aquele momento em meu próprio Poetrix, o sentimento narrado é atemporal, aplicável a diversas ocasiões. Caso eu quisesse produzir um haicai, eu talvez não pudesse dar à palavra “frio” mais de um sentido, trazer-lhe ambiguidades e confusões e misturas de significados. "Frio" significaria apenas o registro de tempo e estação do ano e não poderia indicar, ao mesmo tempo, a característica de um personagem. Meu poema ficaria incompleto.

“Quanto mais se extrair de uma palavra tudo aquilo que ela foi feita para dizer, melhor. Sempre tem duplo, triplo, quádruplo sentido". É o que Marilda chama de "privilegiar a inteligência do leitor", que não pode ganhar tudo de bandeja, já pronto. "Queremos que ele mastigue, engula, faça a digestão”.

A estrutura do poema permite a inovação, as aventuras, apostas, riscos, jogos. O título, que não entra na contagem de limite de sílabas métricas, pode interagir com o Poetrix. Em vez de usar a palavra mar em um deles, escrevi As três primeiras letras do meu nome, o que significa que, além de referir-me ao próprio mar, discorro sobre algo que faz parte de mim de uma forma especial.

As três primeiras letras do meu nome

Poesia embalada pela brisa
Água e sal que tem graça
Ah-mar!

Esse Poetrix foi inspirado em um texto que escrevi há alguns meses, constituído por três parágrafos por onde se distribuíam 1.283 caracteres. Sua essência não se perdeu por ter de se apertar em apenas três versos: o que eu queria transmitir de mais importante naquele texto ganhou evidência no formato Poetrix.

Fiz isso porque Marilda me recomendou sintetizar textos ou matérias jornalísticas através do Poetrix. Ela costumava criar poemas para resumir relatórios prolixos. “Estamos em um mundo sem tempo para grandes leituras”, constata a poetrixista. Além de o Poetrix contribuir para facilitar a criação de textos resumidos, é uma saída para quem tem o fator "pouco tempo" como pretexto para a falta de leitura.

Mas, para quem escreve, o melhor parece ser encontrar termos polissêmicos, ironias e jogos de palavras do cotidiano que caibam bem ao papel. Depois de ensaiar alguns Poetrix, meus sentidos estão mais atentos. Poetrixar é a atividade de deliciar-se com tudo o que se vê, ouve e sente. Por isso, eu parafraseio Goulart Gomes: Haicai é uma bela fotografia, mas Poetrix… Poetrix é um delicioso chocolate.


MARIA DA POESIA

Maria Rezende é uma poeta carioca da nova geração. Feminina, corajosa, talentosa.  
Ela define-se assim: Poeta e montadora, carioca de 78, mulher apaixonada e cozinheira bissexta.

Vejam/ouçam no vídeo abaixo, 4 poemas dela.  O mais famoso, pelo tema inusitado, é o Pau Mole.


PSIU

MONICA BERGER

Poetrix

Arrependimento


Foi tardio aquele medo
aquele arrepio
que percorreu minha espinha
e aquele suor frio
que escorreu pelo braço.

Na garganta um “que é que eu faço?”
entalou,
engasgou,
saiu resmungo,
ninguém neste mundo
poderia entender.

Porém,
tardia também saia tua voz
quando entre nós
jazia a nudez

e uma vez feito
nada arrancava do peito
aquele vão

nem minha mão leve,
nem teu tom breve
e macio de falar
quão tardio foi amar.

(Marilda Confortin)
Insensatez


Posso até ver tua tez tensa
por detrás das letras impressas
e ouvir o silêncio das reticências
nas palavras presas no teclado.
É de uma intensa desesperança.
Renuncias até da ofensa.
O esforço de amar já não compensa...
Começar tudo de novo
dá uma preguiça... não é?
É.... Pra quem sabe de cor a missa
Já não há mais surpresa na fé.

Um acordo com a poesia

Façamos um trato:
Chega de maus tratos.
Estamos sempre por um triz
e nunca gozamos.
Libertemo-nos, pois.

Eu escolho o lugar
e tu o clima.
Entro com o vinho
Tu, a rima.

Tanto faz:
Na tua casa
Ou na minha.

Sejamos voyeur um do outro.

Tu escolhes minhas companhias
Eu as tuas.
Entras com a lua
Eu te faço festa.
Espiaremo-nos pelas frestas.

Seremos complacentes
com crianças e adolescentes,
mas exigiremos o máximo
dos boêmios e dos clássicos.

Então tá, minha musa:
Eu te uso, tu me usas.
Estamos livres
pra (na)morar outros livros
e desaguar em qualquer mar.

(marilda confortin)
Dolorosa lembrança

Pensar em você
é me saber vinho
lembrando tempos de uva
esmagada sob seus pés.

É me saber trigo,
pressentindo o calor do forno
queimando-me pão.

É me sentir homem,
segurando o gozo,
temeroso do retorno ao útero.

É conter o orgasmo,
prevendo a dor do aborto.

Pensar em você
é sentir um vazio imensurável
como se Deus, por um momento,
duvidasse de sua própria existência.

(marilda confortin)

Cuca: Intérprete curitibano

CUCA - cantando nosso samba triste e sem nome

Se foi nosso Cuca.  Faleceu nos primeiros dias de maio de 2010. Era um dos melhores  cantores da  noite Curitibana.

Tantos anos ouvindo-o e eu nunca soube seu nome completo.... só o apelido.: "CUCA" Imperdoável.

Cuca nem precisava de instrumentos musicais para acompanhar. Era dono de um vozeirão capaz de calar até os faladores mais  compulsivo dos bares.

Além da saudade, comigo ficou apenas uma fotografia de uma "quinta dos infernos" lá no Villa das Artes onde cantou nos últimos anos e uma gravação caseira de um samba triste e sem nome, composto  por mim, pelo Marco Guiraud (meu ex-marido, também faleceu em fevereiro deste ano),  e pelo s parceiros Washington e Clio Abreu. Fizemos muitas músicas juntos. Chamávamos essa parceria de "5 mares e um rio".  Mas esse é o samba mais triste que compusemos... tão triste que nem nome tem. Até me dá vontade de chorar. Cuca queria gravar essa música. Gravou, mas, só na minha memória e dos parceiros dessa composição. É... Está sendo um ano de muitas perdas esse tal de 2010..

Posto aqui esse samba, como um réquiem  para o Marco e para o Cuca.

SAMBA TRISTE E SEM NOME
Autores: Marco Guiraud, Marilda Marilda Confortin, Washington e Clio Abreu
Intérprete: Cuca


Nada para mim traz alegria
hoje foi só mais um dia
sem flores no meu jardim
sigo tão tristonho meu caminho
só restou aquele espinho
de um amor que teve fim

a esperança é a última a morrer
mas, para sobreviver
quanto ela se transforma!

eu sonhei amor mais que perfeito
que ironia - o meu peito
com migalhas se conforma


ANAIR WEIRICH
a Sacoleira dos Sonhos



Durante a infância pobre no interior de Santa Catarina, no início da década de sessenta, Anair  Weirich,  já encarava os palcos improvisados nas escolas e no coreto da praça recitando poemas nas datas comemorativas da pequena cidade de Chapecó.

Na adolescência, mesmo sem nunca ter assistido a um show, já que não tinha televisão em sua casa, a loirinha Anair, se vestia de Wanderléia e divertia os amigos, cantando “...Essa é uma prova de fogo, você vai dizer se gosta de mim”.


A desinibição, a vocação artística, o gosto pela poesia, a alegria e a habilidade com as palavras, foram completamente abafadas na fase adulta, ao casar-se com um homem que não permitia que sua esposa, “exibisse suas emoções por aí”. Por muito tempo, desempenhou o papel da mulher submissa que só servia para lavar roupas, criar filhos, aceitar as bebedeiras e maus tratos do marido, ser traída e sufocar todos os seus sonhos e sentimentos.

Um dia, encorajou-se e interrompeu o caminho do suicídio. Pegou seus dois filhos e abandonou a casa. Começou tudo de novo. Para sustentar a família, passou a vender produtos de beleza e potinhos de plástico de casa em casa. Para conquistar as clientes, Anair recitava poesias de amor e motivacionais.

Como a estratégia de venda estava dando certo, a empresa de perfumaria patrocinou seu primeiro livro de poesias. Com o lucro, Anair produziu mais um livro, depois outro e mais outro.

Naquele tempo, os textos de auto-ajuda ainda não estavam em moda. Mas, a história da Anair e sua determinação em sobreviver da poesia, por si só já era uma poesia motivacional. A clientela feminina daquela época, composta na maioria por donas de casa, adorava seus textos eróticos, seus poemas de amor em linguagem simples e coloquial e suas mensagens que elevavam a auto-estima feminina. Percebendo esse mercado,  Anair  deixou de oferecer produtos que embelezavam só o rosto. Passou a oferecer produtos que embelezavam principalmente a alma. Além dos livros, produziu artesanalmente vários tipos de recipientes que continham poesias e mensagens motivacionais em seu interior. Verdadeiros mimos como por exemplo: potinhos de vidro decorados, caixinhas de fósforo,  cestinhos de poesia, livrinhos em formato de pacote de presente, etc.

LIMIAR DO TEMPO

“Amar é...
Te encontrar, como agora.
Só que na velhice, de bengala,
E ainda assim, sentir a mesma emoção
Que estou sentindo nessa hora!


Colocava tudo em sua enorme mala, pegava um ônibus e viajava pelo sul do Brasil, vendendo seus produtos poéticos de porta em porta. No retorno, trazia muitos livros usados que ganhava, comprava ou trocava pelos seus.

Casou-se novamente e Cláudio passou ajudá-la, incentivando-a como escritora e até investiu no negócio, abrindo um sebo chamado Panacéia, que atualmente é gerenciado pela filha Deny. A palavra uniu a família novamente.

Com uma ajudinha de um famoso apresentador de televisão, Anair ficou conhecida como “sacoleira dos sonhos” por percorrer diariamente as estradas do sul do Brasil recitando poesias e oferecendo livros em escolas, creches, teatros, universidades, postos de gasolina, livrarias, papelarias, banquinhas, mercados, açougues, fila de banco, fila de ônibus e onde lhe desse na telha. 

Essa mulher já publicou 23 livros, tem outros cinco no prelo, participou de mais de 20 antologias, seu pequenino livro “Mensagens para um dia melhor” vendeu mais de 80 mil exemplares que somados aos demais livros de sua autoria, atinge a fabulosa marca de  cento e cinqüenta mil exemplares vendidos de porta em porta por esse Brasil afora.

Tinha tudo para dar errado: pobreza, descriminação, falta de oportunidade de estudo, solidão, abandono, mas ela deu a volta por cima. Perguntei  à Anair:


PC- Afinal, você abriu os olhos e encarou a vida, ou você fechou os olhos e mergulhou?  Ela me respondeu assim:

AW- Bom, eu mergulhei de olhos fechados, confiando no instinto. Quando voltei à  superfície, abri meus olhos, respirei fundo e percebi que queria mergulhar outra vez. Gostei de viver perigosamente. 

PC- Você escreve livros que valorizam o otimismo, a perseverança, a esperança. Você se considera uma escritora de auto-ajuda?  Como você encara as críticas dos que dizem que auto-ajuda não é poesia?

- Eu divido minha literatura assim: Tenho os livros do coração, que escrevo por puro prazer. São os livros de poesia. Esses não vendem quase nada porque as pessoas preferem ler romances e auto ajuda.  E tenho os livros que dão o sustento do corpo e da alma, que são os motivacionais.  Amo a poesia mas sou muito grata aos meus livros de mensagens, pois eles sustentam minha família, fazem bem às pessoas e eu me emociono cada vez que alguém me diz o quanto eles lhe fazem bem.

LEMA DE VIDA

Topas ir ao topo?
Mas tem que ser
Escolado em escalar!
Tem que ter tenacidade
Como escopo...
Ninguém chega ao topo
Sem suar!

PC- A emocionante história da Anair, está registrada no livro “Como consegui” que logo, logo  estará nas bancas. Li uma primeira versão e lembro de uma história onde você foi confundida com uma vendedora de livros e pediram para você se retirar do local. Isso continua acontecendo? Como você reage?

AW- Esse livro mudou de título. Agora chama-se: A VENDEDORA DE LIVROS. Na verdade é o que eu sou: Uma vendedora de livros. Assumi.  Ser a própria autora ajuda, mas o que adianta ser autora, se não consigo vender? Por isso, me tornei uma boa vendedora. Resisti muito à esse título,  mas acabei aceitando. Minha estratégia e minha arma de sedução são os diferenciais:  Ao oferecer meus livros, eu recito uma poesia.  Quando os olhos brilham emocionados, eu sei que conquistei meu cliente e plantei a semente da leitura. É claro que tem muito coração duro, que não se comove com nada.

Outro diferencial que conquista em meus livros, são os marcadores de páginas ecológicos, que se transformam em bijuterias de pescoço artesanais, feitos pelo meu marido. E também perfumo meus livros com óleo de rosas. É uma delícia ver como eles se surpreendem e cheiram, cheiram e cheiram! Esses atrativos conquistam o público e tornam meu trabalho mais emocionante, um delicioso desafio.

Em SC eu represento autores catarinenses, mas, vendo em maior quantidade mesmo os  meus livros, pois as pessoas se sensibilizam ao ver o próprio autor oferecendo seu produto. Cria um laço entre o escritor e o leitor. E olhe que tem muito café no bule escondido em gavetas e armários, é de cortar o coração. Eu ofereço, faço minha parte, mas..., tenho pena desses autores que não sabem vender e nem têm uma editora ou distribuidora trabalhando por eles. Deveria existir um incentivo bem maior por parte do governo para os pequenos autores. É dolorido chegar nas bibliotecas e livrarias e ver um percentual bem maior de livros estrangeiros ou que a grande mídia promove, na maioria traduções, enquanto os escritores locais ficam cada vez mais anônimos. Deveria existir uma cooperativa de pequenos autores e uma mídia que os promovesse. Os vendedores acham bem mais fácil oferecer o que já está bem divulgado, que não precisa de convencimento. Eles não se dão ao trabalho de ler para saber do que se trata o livro.  

PC- Anair teve um livro inteiro que foi “pirateado”. Ela conta como isso aconteceu: 

AW-  Foi assim: No ano 2000, mandei imprimir numa gráfica do Rio Grande do Sul,  dez mil exemplares do meu livro “Mensagem para um dia melhor”. A gráfica entregou-se a encomenda e  imprimiu por conta, sem a minha autorização, mais uma quantidade que não consegui determinar e colocou nas livrarias por um preço bem menor do que eu paguei para imprimir. Abri um processo contra a gráfica. Mas na hora de testemunhar a meu favor, os próprios livreiros que me avisaram que isso estava acontecendo, caíram fora, argumentando que não poderiam deixar suas livrarias para ir testemunhar, que teriam despesas de viagem, alimentação e hospedagem, que não queriam se expor, que eles já tinham feito muito em me avisar. E a corda arrebentou do lado mais fraco: o meu.

Mas em tudo se tira uma lição. Se essa gráfica não tivesse feito isso, eu não teria criado o “Livro Lúdico das Cores”. Foi um livro gerado na hora da raiva, da indignação. Eu sabia que tinha que criar algo diferente. Hoje é o carro chefe dos meus livros. Cada vez que o pego nas mãos, um sentimento de gratidão muito grande me invade, pois é dele que vem tudo que precisamos e permite que possamos viajar e conhecer tantos lugares diferentes daqui do sul, enquanto trabalhamos.  




PC- A escritora Anair ministra palestras, oficinas e recitais em escolas. Sua poesia infantil é muito bem aceita nesse meio: 


PACIÊNCIA

Quem já viu algo funcionar
aos tapas e empurrões?
Nada mesmo dá certo,
quando é feito aos trambolhões!

Mas, se formos com jeitinho,
(como diz sempre a ciência...)
com amor e com carinho
tudo conseguiremos!

- Isso se chama PACIENCIA!

(do livro infantil Doce Jeito de Ser Criança)




A EMOÇÃO DE LER

- Passarinho, passarinho!
Eu também queria voar
E conhecer outros mundos...
Mas não tenho asas, nem dinheiro.

-Menininho, menininho!
Você deixe de bobagem.
Quem lê viaja ao mundo inteiro,
Sem ter que pagar passagem.



PC- Falando sobre a literatura catarinense, Anair desabafou: 

AW- Falta incentivo, sim, e muito! Existe uma lei chamada Cocali, que está só no papel, e quando funciona, é pra meia dúzia de uma panelinha que existe na capital. 
Tem muita gente boa na nossa terra. A Urda Alice Klüeger, por exemplo, historiadora e romancista, é a escritora de maior projeção de SC, teve muitos livros adotados para o vestibular catarinense e paulista e mesmo assim, em algumas escolas os professores dizem que nunca leram nada dela.

Tem o Norberto Pontel, de Planalto SC, que é um romancista cujos temas são os “sem terra”. São romances que mostram como é o lado de lá, cheios de emoção. Pontel é tão bom no que escreve, que até eu, que condeno invasões de terra, acabo me comovendo com a vida e a história dessa gente.

Tem o Afonso Martini, que escreveu A FAVELA ENCANTADA, eleito o “Romance do Ano 2008” pela Academia Catarinense de Letras.

 O  Miguel Russowsky, de Joaçaba, é o sonetista mais premiado do Brasil, mas poucas pessoas sabem disso.

Eu fico indignada com a falta de divulgação dos autores catarinenses! Mas também vibro de alegria, quando algo acontece de bom.. Um prêmio ou uma homenagem são comemorados com festa! E choro quando perdemos alguns deles, como o Reinaldo Corona, poeta de Chapecó, e o Miguel, citado à pouco.
AMIGOS
Amigos vêm e vão.   
Amigos são uma nação
de corações leais.
Amigos são demais!
Amigos são trigos ao sol.
São cama e lençol
para deitar-se tranqüilo.
Amigos são aquilo
de tudo o que contas.
Amigos são contas
de um colar de diamantes.
São vogais e consoantes
do alfabeto do amor.
Amigos são abrigos
da maldade e da dor.
São a segurança das pontes,
e a água das fontes!
Amigos são artigos de luxo.
Amigos são bruxos
da distância e do tempo.
Amigos são o elemento
que conta na hora H...
Amigos são maná!
São faróis no nevoeiro.
São arco e arqueiro
na precisão do alvo.
Amigos estão a salvo
das tempestades da vida.
Amigos são guarida
nas horas incautas.
Amigos são flautas
que anunciam companheirismo.
Amigos são o muro seguro
que nos protege do abismo.

(Do livro Melodias do Coração 2008)


Para conhecer mais sobre Anair Weirich,  comprar seus livros,  contratar  para recitais ou  simplesmente fazer contato com a autora, acesse o site: www.literaturacatarinense.com.br ou seu blog: http://anairweirich.blogspot.com/


ou envie um email para ela:


Muito obrigada, Anair e sucesso!
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...