“Escrevo quando sinto que tenho algo a dizer (normalmente um espanto, uma sensação ou indignação e não propriamente um tema), mas que não sei como dizê-lo, pois ainda não pertence ao mundo das palavras. Portanto, escrever poesia é  para mim uma forma de traduzir  meus próprios espantos. Nem sempre consigo fazer esta  translação, a maioria das vezes é tentativa. Mas uma vez conseguida, o poema  me explicará em palavras o que havia sentido e permitirá que uma terceira pessoa o leia, e que também vivencie a mesma sensação, a reconhecê-la. Neste caso, haverá então no poema uma bela comunhão entre o autor e o leitor. Pois, para o leitor, é como se o poema lido tivesse sido escrito para ele”, complementou o poeta.

DISTÂNCIAS

Pudesse, eu seria doce
e, se desse, desde o começo
de sede, eu viesse cedo
relendo o seu endereço.

E fosse avesso do avesso,
azul do tanto que houvesse
gastasse um gesto de gesso
num beijo gosto de festa.

E nunca mais me esquecesse
feliz em todas as espécies...
Por mais que a vida nos perca
e a morte esperta nos pesque.

(Altair Oliveira in O Embebedário Diverso)
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