Um dia depilada, outro peluda

por Valéria Prochmann

Entro em mais uma polêmica com Luiz Felipe Pondé, articulista da Folha de S. Paulo.  Agora o tema é a depilação feminina, que está dando o que falar na coluna do leitor do jornal, com reações de feministas como eu. Além de querer que os outros “fumem” com ele, o autor pretende interferir na liberdade feminina sobre o próprio corpo e de escolha entre depilar-se ou não! Segue minha posição sobre o assunto. 

A propósito do artigo do Luiz Felipe Pondé, sou feminista, bonita, inteligente, independente e autônoma, vegetariana, não fumante, ateia, de cabelos curtos, olhos azuis e tenho um namorido há seis anos que me ama e a quem também amo muito. Já fui casada por 12 anos, me divorciei, tive namorados desde os 12 anos e não me sinto frustrada tampouco desesperada “for a husband”. 
Costumo me depilar, porém não considero que esta seja uma questão de estética tampouco de higiene ou feminilidade. Muitos homens abordam e se ligam em mulheres peludas - alguns até pedem para que as mulheres não se depilem tanto, o que já aconteceu comigo e amigas minhas. As preferências refletem a diversidade humana. E se todas as mulheres preferissem homens sem barba, o que seria dos barbudos? 

A maioria dos homens heterossexuais nem dá bola para pelos, assim como para celulite e estrias: não são fatores decisivos para que se interessem, abordem e queiram se relacionar com uma mulher. O contrário disso seria reduzir os homens ao ridículo, coisa que o Pondé tenta fazer com as mulheres ao afirmar que todas estão desesperadas “for a husband”. Sabe ele quantos pedidos de casamento feitos por homens são recusados diariamente em todo o mundo? Seria uma boa estatística a ser feita. Vide o filme “Noiva em fuga” - e ela fugiu até do Richard Gere! A maioria dos divórcios ainda é pedida por mulheres insatisfeitas com seus casamentos e grande parte delas, após separadas, não quer nem ouvir falar em se casar de novo.
Certa vez um amigo meu absolutamente heterossexual olhou para minhas estrias nas pernas quando eu estava de minissaia sentada ao lado dele em frente a um computador e me perguntou se eu havia me arranhado em algum lugar! Quando respondi que eram estrias, ele exclamou: “Sério?! Então isso que é estria?” 
Impor às mulheres o padrão único de estética não é coisa de macho e sim de alguém com perturbação emocional, próxima ao nazismo que o Pondé tanto procura denunciar. Ou temos todas que ser brancas, loiras, magras e ter cabelos compridos e lisíssimos (porque lisos não bastam), além de depiladas? Contraditoriamente, esse tipo de homem também aprecia cabelos compridos e rejeita mulheres de cabelos curtos, esquecendo-se de que cabelos também são pelos - aliás na língua espanhola a palavra que os designa é a mesma (pelos). Na maior parte do mundo ocidental, as mulheres não cultivam o hábito de se depilar tanto quanto aqui e nem por isso deixam de ser cortejadas, pedidas em casamento, fazer sexo com homens e ter filhos deles. 

Homens sabem pouco desses assuntos femininos… após depilados, os pelos crescem novamente, até mesmo com método definitivo (a laser)… é preciso esperar que cresçam razoavelmente para fazer uma nova depilação, pois se forem arrancados ainda curtos, a pele inflama… enquanto esperamos esse crescimento, é inevitável que fiquemos peludas, ainda que tenhamos o hábito de nos depilar!

A “brazilian wax” faz sucesso lá fora, assim como a “brazilian manicure” que envolve unhas e não pelos, porém é razoável supor que se trata de hábito de regiões eminentemente tropicais em que as pessoas frequentam praia. Antes de tudo, uma opção, uma escolha, que mais diz respeito à individualidade do que à vontade de agradar os homens. Numa maca de depilação, um dia justifiquei-me com a depiladora por estar muito peluda dizendo: “Ainda bem que o namorado está viajando!” ao que ela retrucou: “Você não se depila para ele e sim para si mesma!” 

No entanto, há médicos que apresentam ressalvas aos excessos de depilação, alertando para o aumento dos riscos de contágio por fungos, germes, bactérias, vírus, infecções que entram no organismo pelos poros, como o antraz, que forma furúnculos. A pele humana se ressente de depilações excessivas, seja qual for o método, pois os pelos têm função protetora e podem fazer falta. Muitas vezes nós mulheres precisamos fazer tratamentos com cremes dermatológicos para aliviar os problemas decorrentes das depilações, como pelos encravados, irritações, inflamações e dermatites. Aliás, para ser coerente, o Pondé deveria cortejar apenas mulheres que porventura sofram da absoluta falta de pelos - inclusive cabelos e sobrancelhas - o que é uma doença. Ou quem sabe submeter-se ele mesmo a torturantes sessões de depilação, próximas ao masoquismo, além de caras, inacessíveis portanto a pessoas de baixo poder aquisitivo. O argumento do articulista é, além de machista, pequenoburguês. Finalmente, não são poucos os homens contemporâneos heterossexuais que também se depilam no afã de conquistar mulheres, a começar pelos strippers que dançam para nós!

Valéria Prochmann

 
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