Um poema-épico inteiramente gaúcho

por Tonicato Miranda
Trago para o baile “Martin Fierro”, poema épico gauchesco que os argentinos dizem ser somente deles, mas que pode ser considerado a Ilíada de todo gaúcho. O canto maior de todos que habitam terras sulinas e outras que até nem são, desde os pampas mais andinos até os rincões do Rio Grande, passando pelas vertentes do Iguaçu e das três fronteiras de frondosas cachoeiras. E não se espantem, pois cachoeiras também se põem frondosas, dão cachos multicoloridos e frutos peixes, no dizer gaudério do gaúcho. Mas vamos, sem mais delongas, aos fragmentos do poema após algumas explicações prévias.
Apresentamos a seguir uma colagem do belo ensaio de Jorge Luiz Borges. Trazemos ao olhar atento dos apaixonados pela literatura algumas explicações julgadas importantes do maravilhoso trabalho daquele que foi considerado o maior poeta argentino do Século XX. Portanto, os fragmentos aqui apresentados são citações extraídas do livro “O Martin Fierro”, publicado pela Editora L&PM Editores Ltda, Inverno de 1985, a partir de autorização da Emecé Editores S.A., que publicou a mesma obra em Buenos Aires, em 1978.
“Aquí me pongo a cantar
al compás de la vigüela;
que el hombre que lo desvela
una pena estrordinaria
como la ave solitaria
con el cantar se consuela.”
“Na estrofe seguinte (“Pido a los santos del cielo que ayuden mi pensamiento, Lugones destacou a invocação aos deuses propícios, “que é um costume épico”). Acrescentamos que tais invocações (que também aparecem na poesia das nações orientais e cujo emprego foi preconizado por Dante em uma epístola famosa) não são herança automática da Ilíada; procedem de uma convicção instintiva de que o poético não é obra da razão, mas o ditado de poderes ocultos”. (Borges)
Mas sigamos à apresentação de outras estrofes do poema.
“Tuve em mi pago en um tiempo
hijos, hacienda y mujer;
pero empecé a padecer,
me echaran a la frontera,
¡y qué iba a hallar al volver
Tan sólo hallé la tapera.”
Em outras estrofes, declara:
“Yo he conocido esta tierra
en que el paisano vivía
y su ranchito tenía
y sus hijos y mujer...
Era una delicia el ver
cómo pasaba sus días...”
Discorrendo sobre o tempo, Martín Fierro viaja com ele e com as palavras.
“Moreno, voy a decir,
sigún mi saber alcanza:
el tiempo sólo es tardanza
de lo que está por venir.
no tuvo nunca principio
ni jamás acabará,
porque el tiempo es una rueda
y rueda es eternidá;
y si el hombre lo divide,
sólo lo hace, en mi sentir,
por saber lo que ha vivido
o le resta que vivir.”
Mais para o final do poema épico, Borges nos relata:
Os presentes impedem a briga. Martín Fierro e os rapazes se vão. Chegam à costa de um arroio, apeiam e aí Martín Fierro, que acaba de responder com zombarias a um irmão do homem que assassinou, lhes diz untuosamente:
“El hombre no mate al hombre
ni pelee por fantasía.
Tiene en la desgracia mía
un espejo em que mirarse.
Saber el hombre guardarse
es la gran sabiduría.”
E Jorge Luis Borges, continua:
Depois dessas moralidades, resolvem separar-se e mudar de nome para poder trabalhar em paz. (Podemos imaginar uma luta além do poema, na qual o negro vinga a morte do irmão.)
“No último canto, que tem o número trinta e três, Hernández fala pessoalmente com o leitor, como Walt Whitman na última página de suas Leaves of Grass. Nesta despedida, o poeta sente sem vaidade a grandeza da obra acabada.” (Borges)
“Y si la vida me falta,
tenganló todos por cierto,
que el gaucho, hasta el desierto,
sentirá en tal ocasión
tristeza en el corazón
al saber que yo estoy muerto.
Pues son mis dichas desdichas
las de todos mis hermanos.
Ellos guardarón ufanos
en su corazón mi historia;
me tendrán en su memoria
para siempre mis paisanos...
Mas naides se crea ofendido,
pues a ninguno incomodo;
y si canto de este modo
por encontralo portuno,
NO ES PARA MAL DE NINGUNO
SINO PARA BIEN DE TODOS.”     
Esta publicação mesmo aflorando apenas fragmentos da obra Martín Fierro, trás um dos maiores poemas épicos, se não o de maior expressão na literatura latina. Se “Os Sertões” representa a nossa obra épica em prosa mais importante, nada temos de similar em verso ao poema “Martín Fierro”. Apenas registre-se que para desgosto da gauderice argentina ele pertence a todos os gaúchos, sejam eles argentinos, brasileiros ou uruguaios.
O sentimento gaúcho cruza fronteiras e rios, não tem rancho definido abaixo do paralelo 26º. O gaúcho é homem de invernadas; de montaria; companheiro de manadas; do seu cavalo; amante de uma china que é china aqui, do lado de lá do Quaraí ou do Uruguai, na fronteira dos três estados, mas que não é sua fronteira, nem esta marcada no mapa que no alforje preso lhe vai.
O gaúcho e Martín Fierro são assim como os baios negando estribos ao domador, e ao cerco do laço, da bolhadera, correndo de um lado a outro, nas terras sem serras, tendo cerros por elevações, mas repleta de lonjuras, solidões à frente do olhar, tendo para consolo a erva verde e suas próprias linguagem e guerra.
Recentemente vi documentário sobre o Rio São Francisco, e histórias sobre o vai e vem de barcos à vela, entre o meio do rio e a sua foz. Bonito.de ver, bonito de olhar e ouvir músicas feitas para o Velho Chico. E então lembrei de Euclides da Cunha e do seu “Os Sertões”.
Pois Martín Fierro é esta liberdade sem paradeiro, circulando solta pelas várzeas dos pampas, nas terras ao redor dos rios das três fronteiras. A sua maior grandeza é a sua língua solta, o dizer e fazer uma contação de história simples como se fora um épico; como se fora a única história a ser contada, por léguas e léguas na pradaria. A valentia traduzida em versos incontestes encanta, por vezes assusta, pela rudeza dos causos de violência quando obstáculos e desafetos são eliminados como se arranca um capim para o mastigo dos dentes no canto da boca. E neste ponto, então, também lembro de Guimarães Rosa e do seu “Grande Sertão e Veredas”, a obra, quase épica, para mim mais do que épica, na linguagem e na invenção do vida humana onde a sobrevivência era quase improvável.
O poema Martín Fierro, perdoe-me Borges e os argentinos, não é nem jamais será deles. Ele é um legado gauchesco, para o todo sempre prisioneiro da gente que se não houvessem as fronteiras dos donos dos poderes, seria de todos gaúchos, filhos do Estado do Pampa.
Este texto foi escrito originalmente em Curitiba, no dia 12 Setembro de 2008, agora revisto e ampliado na mesma cidade, em 31 de Maio de 2011.
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