BOTAPOR


Essa é uma história de terror infantil, que minha mãe contava quando eu era pequena. Depois de muitos anos, navegando pela Internet eu encontrei um livro de Ítalo Calvino chamado "Fiabe italiane", de 1956, ano em que nasci. 

Comprei a edição em português, publicada pela Companhia das Letras, sem saber que eu encontraria lá a fábula do "Giovanin senza paura", que na verdade eu conhecia como a história do BOTAPOR, contada pela minha mãe em dialeto italiano. 

Agora que já sou nonna (avó) também, e antes que minhas memórias também escapem, resolvi transcrever a história em formato digital.  

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Geraldo Magela Cardoso


Geraldo Magela Cardoso 1956 - 2022

... "Publicou, entre outros livros, Bendita Boca Maldita (poemas, 1982) e O homem é produto do e-mail (contos, 2016). Também colaborou com várias ações e projetos na capital paranaense. Ele esteve à frente de eventos como CuTUCando e Feira do Poeta, projeto que há décadas dá visibilidade a autores locais. Ele também foi funcionário da Fundação Cultural de Curitiba durante 30 anos.

Magela ainda escreveu as obras de teatro: Welcome to Curitiba capital do freezer teatro; Cadeira de Balanço, e Vale Roxo. Publicou o livro de microcontos Curitiba nunca se sabe. E os poemas de culinária: Marmitexto - suporte poético. Participou das Antologias: Poetas na praça 85; Conexão Feira do poeta e Parnaso Poético, entre outros."

https://rascunho.com.br/noticias/morre-o-poeta-curitibano-geraldo-magelaescreveu/




No vídeo, Geraldo Magela e João Belo, no Conversa com Verso e Prosa, um programa do RH Criativo da Prefeitura de Curitiba, apresentado pelo meu parceirão Cumpadi Daniel Faria, durante a gestão da Secretária Municipal Mereoujy Giacomazzi. 

Missão cumprida, Magela. Vai lá, brincar com Helena, Leminski, Cardoso e outros tantos. Se existir outra dimensão, daqui a pouco estaremos todos  juntos cuTUCando a inspiração dos deuses. 


Enluto


Foi-se mais um amigo poeta
Pesam-me os vazios
Pêsames


(marilda)


Poetrix - Antologia 7 - Resistir


Acabei de receber os exemplares da sétima Antologia Poetrix. Essa foi concebida durante a pandemia e conflitos políticos. Um registro histórico escrito em três versos. 

Eu sempre doo meus exemplares à bibliotecas e amigos, Então, não vou fazer suspense. Publico abaixo os meus Poetrix que entraram nessa coletânea. A maioria deles foi inspirada em conversas com um amigo. Divido a autoria com ele. Valeu Abreu!

Praga

A gente mata, desmata,
Rouba, oprime, discrimina.
Contra nós não há vacina.


Desatino

Vírus livre. Homem preso.
A velha no catre cisma.
– Cataclisma?


Inevitável Confronto

O medo não protege.
Só protela o duelo.
Ele virá(lizará).


Ninguém disse pra Ela: Fica em casa!
Alheia à lei
Há uma aliá
Na aleia


Vírus (In)tolerante

A ninguém absolve.
Absorve-nos
Sem incriminar nem discriminar.


Confinados em casa(mento)

Beijo insosso.
Abraço frouxo.
Desgosto desgasta.


Prece sem pressa

Está chegando a hora...
Senhor, dai-me o céu!
Mas, não agora.


Não me Covid pra balada

Sou dengosa,
evito mosquitos
e más influenzas.


Impotência

Saber dos fatos, sem poder mudá-los.
Torcer para não acontecer.
Rezar mesmo sem crer.


Solitude

Converso com as paredes.
Nada concreto.
Divagamos do piso ao teto.


Oroboro

A pandemia atenua. Carnaval na rua.
Descalabro!
A cobra morde o rabo.



Confinados, minguamos

Do épico ao pífio.
Monossilábicos.
Quasímodos.

videotrix água benta


Revisitando o poema Água,  du Bocage

Alzheimer




Alzheimer I

Tropecei numa pedra no meio do caminho.
Tinha uma pedra...
Onde eu estava indo, mesmo?


Alzheimer II

Perdi o caminho da pedra
Gosto muito de rimas
Só não lembro para que servem



A gente vai envelhecendo e esquecendo as coisas importantes. Mas, gente velha, como eu, adora remexer nos baús do passado. Foi numa dessas incursões pelo mundo dos guardados que encontrei o certificado (moído) do primeiro prêmio literário que recebi. 



Não lembro o que escrevi. Lembro que era sobre Tiradentes e que o título do poema era "o executado".  Mas, lembro muito bem, que o prêmio foi um livro infantil. Foi o primeiro livro infantil que eu tive: A rainha da neve, de Hans Christian Andersen.

Dias de adiar

 

Há dias
em que tudo o que eu queria
era alguém que só me desse silêncios.
Não carecia me amar. Dispenso.

É que há dias
em que a vida fingida
passa por mim e nem liga.
Faz de conta que não me conhece.

São nesses dias,
que eu queria alguém inteiro,
que não me repassasse e-mails
cheios de vazios
nem me telefonasse
arrombando meus ouvidos
com frases prontas,
palavras tetra chaves
e conselhos paulocoelhos.


Alguém que soubesse que a vida
é feita de dias assim.

Dias em que se cala
e se dorme juntinho no sofá da sala
ouvindo B.B. King.

Porque há dias, meu amigo,
que até os poemas de amor são doloridos.

Marilda Confortin

Standby




 

Olhar materno

 

Img: Cleto de Assis



Olhar ma_terno

A menina dos teus olhos
envelheceu
sem ru(s)gas

(marilda confortin)

Às vezes acho que te amo


img: Cleto de Assis


Às vezes acho que te amo, mas logo passa


É quando chovo.
Tremulo
umedeço
emulo terra no cio
in vulva veritas, choro.

Mas, quando estio
evaporo-te.

Às vezes acho que te amo, mas logo passa

É quando acordo.
Rebooto
reinstalo sabores
saberes
lembranças.


Reluto deletar-te
E salvo-temporariamen-te


É quando me rio.
Diluo
fluo
deságuo em teus braços afluentes.
Esqueço que és
somente um riacho.

Às vezes acho que te amo.

É quando sonho.
Extasio
perco o olhar no vazio
onde vive a saudade
das coisas morridas.

Mas, logo passa.

Tem sempre
um maldito mosquito
que voa de repente
trazendo-me de volta
à realidade.