Corvo na manteiga

O clima de Curitiba confunde até as flores.  Estamos em outubro e as fores de maio estão cheias de botões. Parecem com a cara do meu filho adolescente explodindo em  espinhas. Não sabem se abrem ou se fecham em si. Vou colocá-las na janela para que vejam passar as cinco estações do Paulo Leminski. Quando cheguei nessa cidade lá pela década de 70, desembarquei na primeira das estações: A rodoferroviária. No mesmo dia, senti na pele as outras quatro. E quando fui procurar a casa de minha irmã na rua Mateus Leme, tive certeza que se continuasse andando em linha reta, encontraria o mar. Aquela rua tinha cheiro de mar, barulho de mar e casas de frutos do mar. Imperdoável mesmo, não ter mar em Curitiba.

Espirro. Saúde-me! O ar de inverno me inspira. Tremo de saudades. Temo estar cheia de vazios. A ausência dele pesa feito uma tonelada de plumas. Se ao menos eu tivesse cometido todos aqueles crimes. Aceitaria melhor essas penas que me dão tanta tristeza e alergia. Atchim! Penas...

Mas o que é aquilo ali no parapeito da janela do sétimo andar? (parapeito  é aquele murinho que fica na altura da cintura ou do peito e impede que as pessoas normais saiam voando pela janela). Tá vendo, alí, ao lado da flor de maio? Parece um corvo. É um corvo? É um corvo. Já vi essa cena, já li essa história... Isso não vai se repetir... Não sou mais criança, não adoto mais animais esquisitos. Mas como é que um corvo se Põe na minha janela assim tão à vontade? Eu fedo? Estou morta? Alguém me responda!  Ninguém conhece esse poema aqui? Cazzilda! Prometi não dizer mais palavrões conhecidos, então me xingo de Cazzilda. Diminutivo carinhoso, feminino de cazzo.

Abro um chat e pergunto à um amigo que fica eternamente on-line. Mente que não lembra do poema, mas responde:

- Sim, você está morta.

- Filho da mãe! Se disser que eu fedo, te deleto.

E o corvo lá, paradão, me olhando. Ele livre e eu presa. Ele presa, eu predador. Bato na vidraça e faço movimentos com as mãos para espantá-lo. Nem me dá bola. Falo:

- Vai embora! Não gosto de você! Não gosto desse poema. Aqui não é seu lugar. Sai!

Abaixa e levanta a cabeça repetidamente como se não me entendesse e perguntasse: “O quê? O quê ?”

- Você está no centro de uma capital, animal! Curitiba, Paraná, Brasil. Já passamos do ano 2000. Só tem prédio, carro e gente. Não tem nada prá você aqui. Volte para seu lugar.

Acho que vi um sorriso irônico no bico dele. Juro que ouvi ele me dizer:

- E onde é que eu encontro podridão à vontade, lixo, gente que morreu e nem sabe, como você?

As pessoas normais dessa cidade ecológica vêem andorinhas, pardais, sabiás... Os poetas desta cidade são inspirados por borboletas, andorinhas, beija-flores, pombinhas e catorritas. Porque eu tenho que ser visitada por um corvo?

- Porque você não é poeta e nem gente, sua anta!

- Olha, vou esquecer que você existe. Esquecer o que você disse. Você é só um pássaro sem teto (como eu) que migrou para a cidade grande. Pior, nem pertence ao MST. Eu, pelo menos sou sindicalizada.  Você não existe. É só uma metáfora velha, que insiste em aparecer nos meus pesadelos.  Você nem corvo é, seu urubu de merda!

Voltei a falar com aquele artista que vive no computador fazendo capas de livros. Disse-me que estava procurando água na Internet. Navegar é impreciso, respondi e sugeri que procurasse água no mundo real, na terra, usando uma forquilha de roseira. Acho que não gostou da minha sabedoria empírica. Mudei de assunto.

Reclamei do frio. Sugeriu que bebêssemos uma garrafa de um bom Corvo. Tinha que voltar ao assunto, o engraçadinho. Tudo bem.... mas o que faço com esse corvo aqui, perguntei.

- Come ele. Você é muito mole, mulher. Tem que comer carne de corvo e farofa de caco de vidro pra ver se endurece. Ninguém lhe disse isso?
- É verdade. Tinha esquecido dessa receita de sobrevivência. Acho que estou lendo e escrevendo muita poesia... Ando uma manteiga derretida ultimamente.
- Ótimo! Excelente pedida: corvo na manteiga, um bom vinho, você e eu. Topas?
- Eca! Never, never more!
- Não quer sair comigo?
- Não é isso... Não quero comer carne de corvo.
- Tá me chamando de corvo?
- Pare! Você está me confundindo.
- Ainda não, mas pretendo.

Uma semana depois, o mesmo urubu que eu insisto em chamar de corvo, entrou no apartamento de uma amiga. Quem manda morar numa cobertura? Andou pelos quartos, cozinha, entrou na banheira, perfumou-se todo com os sais de banho e encarou o marido dela. Ele é espada: passou a mão no telefone e chamou os bombeiros. Não, os bombeiros não acudiram. Isso só acontece nos filmes americanos. Trancaram o pobre pássaro no quarto do filho que não dormiu em casa. No dia seguinte, a empregada abriu a janela e ele saiu voando solene.

Fez ninho no prédio em frente ao do meu trabalho, sob uma antena parabólica. Visita-me sempre. Agradeceu as flores de maio e as violetas que coloquei na janela em sua homenagem.

Conheci sua família. Tutti buona gente. Só não aceitei o convite para almoçar, por que virei vegetariana e trago minha marmita pro trabalho: arroz, feijão, ovo frito e salada de tomate. Mas se as coisas continuarem piorando desse jeito, não sei não... ele que não insista.

Por Marilda Confortin - in Pedradas Cronicas


vejam só, o mesmo conto traduzido para IDO

IDO - Idiomo Di Omni

Ido é uma língua artificial. Uma versão reformulada e simplificada do Esperanto criada no início do século XX por uma equipa de cientistas e linguistas. Se parece muito com francês, espanhol, italiano, além do próprio esperanto e do português.
Uma das minhas crônicas, publicada no livro Pedradas,  foi traduzida pelo Geraldo, um estudioso do IDO.
Posto aqui, em português e depois em IDO, para deixar registrado essa inesperada tradução.Vá que alguem tenha a curiosidade de ler...


Vulturo en la Butro

Originale en portugalalinguo, da Marilda Confortin
Idala versiono da Geraldo Boz Junior

La klimato di Curitiba konfundas mem la flori di mayo. Ni esas en oktobro e li esas plena de butomi. Semblas la vango di yunulo plena de explodanta pustuleti. Li ne savas se li apertas o se li klosas su. Me metos li an la fenestro por ke li videz pasar la kin stacioni di Leminski(1). Kande me arivis a ca urbo, me desembarkis en la unesma: la autobus-fervoyala staciono/sezono. En la sama dio me sentis per la pelo la altra quar. E kande me iris serchar la apartamento di mea fratino, an strado Mateus Leme, me esis certa ke se me durus iranta rekte, me atingus la maro. Ita strado havas odoro del maro, bruiso del maro e diversa restorerii di manjaji del maro. Nepardonebla ne existar maro hike.

Sternuto. Salude! L’aero di autuno inspiras me. Me fremisas pro nostalgio. Me timas esar plena de vakui. Ilua absenteso pezas quale tuno de plumi/punisuri(2). Se, adminime, me deliktabis omna ta krimini, me akcetus plubone ica punisuri qua donas a me tanta tristeso e tanta alergieso. Atchim! Plumi...

Ma quo esas ito sur la pektoro-mureto dil sepesma etajo? (pektoro-mureto esas ta mureto ke restas sub la pektoro e impedas normala personi ekirar flugante tra la fenestri) . Ka tu vidas, ibe, an la floro di mayo? Semblas vulturo. Kad esas vulturo? Ya esas vulturo. Me ja vidis ica ceno, me ja legis ca rakonto... Ico ne plus iteros. Me ne plus esas infanto, me ne plus adoptas stranja animali. Ma pro quo vulturo Poe/pozas  su an mea fenestro, tale volunte? Ka me malodoras? Ka me mortabas? Ulu respondez a me! Nulu hike konocas ica poemo?  Kacilda!  Me promisis ne plus dicar konocata parolachi, do me inventis Kacilda. Diminutajo karezala di kaco(3).

Me apertas babileyo e questionas amiko qua restas sempre en la interreto. Ilu mentias ke lu ne memoras la poemo, ma repondas:

- Yes, tu mortabas.
- Filiulo de putino. Se tu dicos anke ke me malodoras, me efacos tu.

E la vulturo ibe, stacanta, regardanta me. Lu libero, me arestito/raptato(4). Lu raptato/arestito, me raptisto. Me iras an la fenestro e movas la manui por pavorigar lu. Lu semblas nek vidar me. Me dicas:

- Irez for! Me ne prizas ica poemo. Me ne vokis tu. Hike ne esas tua plaso. Irez!

Lu levas e abasas la kapo, quale se lu ne komprenas e questionas: Quo? Quo?

- Tu esas meze di chefurbo, animalo! Ni esas en 2001. Brazilia. Esas nur konstruktaji, automobili e personi. 
Esas nulo por tu hike. Retroirez a tua plaso.

Me pensas ke me vidis ironia rideto en lua beko. Me juras ke me audis lu parolar:

- Ube me trovos tante multa putraji, kraso, personi ke mortabas ma ne savas lo, quale tu?

La normala personi de ica ekologiema urbo vidas hirundi, paseri e turdi... la poeti vizitesas da papilioni, hirundi, kolibrii, kolombeti e altra bela uceli. Pro quo me vizitesas da vulturo?

- Pro ke tu ne esas poeto, nek persono, besto!
- Bone, me oblivios ke tu existas, me oblivios quon tu dicabas. Tu esas nur senhema ucelo (quale me) ke migris aden ica urbo. Plu male ke tu ne mem apartenas a MST(5). Me, adminime, esas en la sindikato.

Me itere parolis kun ita artisto ke vivas em la komputoro facanta librokovrili. Lu dicis a me ke lu esis serchanta aquo en la interreto. Navigado esas nepreciza/nebezona (6) afero, me respondis e me sugestis ke il serchez aquo en la tero, per ipsilona brancho de roziero. Me pensas ke il ne multe prizis mea praktikala saveso. Me chanjis la temo. Me lamentis pri la vetero. Ilu sugestis ekirar e drinkar botelo di bona Vulturo(7) . Ilu retrovenis al temo, la drolo. Bone, ma quon ma facos pri ta vulturo?, me questionis.

- Manjez lu. Tu esas tro mola, muliero. Tu devas manjar karno de vulturo e vitropeci por hardeskar. Ka nulu parolis ico a tu?
- Esas vero. Me obliviabas. Me pensas ke me esas lektanta tro multa poezio... Lastatempe, me esas quale fuzata butro.
- Bonega! Ecelanta komendo: vulturo en la butro, bona vino, tu e me. Volas?
- Argh! Nultempe. Nultampe itere!
- Ka tu ne volas kunvenar kun me?
- No, ne esas ico... Me ne volas manjar karno de vulturo.
- Ka tu nomas me vulturo?
- Haltez! Tu konfuzas me!
- Ne ja, ma me intencas lo.

Un semano pose, la sama vulturo iris aden apartamento di amikino mea. La blamo es elua, nam elu lojas en kovro (la maxim alta e maxim chera apartamento di edifico). Ol iris en la chambri, kokeyo, aden la balnuyo, parfumizis su per la balnosali e regardis audace elua spozulo. Ilu esas maskula viro: quik prenis la telefono e vokis la fairisti. No, la faristi ne venis. Ico eventas nur en usana filmi. Ili klefagis la kompatind ucelo en la chambro di ilia filiulo, qua ne dormis heme. En la sequanta dio, la hememployatino apertis la fenestro ed ol ekflugis solene.

Ol facis nesto sur la konstrukturo avan la mea, sub parabola anteno. Ol vizitas me freque. Ol dankis pro la flori di mayo e la violi quin me pozis an la fenestro.

Me konocis olua familio. “Tutti buona gente”. Me apene ne akceptis olua invito por dejunar, nam me ja varmigabis mea portebla manjuyo: rizo, fazeolo, fritita ovo e salado de tomato. Se la situeso duras dakadanta, me ya ne savas... plu bone ke ol ne insistez.

____________________________________
(1) En la portugalalinguo la vorto ‘estação’ signifikas e sezono e staciono. Paulo Leminski esis Curitibana poeto, qua dicis ke se on arivas a Curitiba per treno o autobuso, on povas vidar kin sezoni/stacioni en un dio. La quar sezoni e la urbala staciono por autobusi e treni.

(2) Itere la autorino jokas per vorti. Em la portugalalinguo, “pena” signifikas e plumo e punisuro e kompato.

(3) La autorino, quale multa braziliani, descendas de italiani...

(4) La portugala ‘presa’ signifikas e arestito e raptato.

(5) MST esas “Movimento dos Sem Terra”, la Movado dil Sen Tero, qua propozas rurala reformo em Brazilia.

(6) La portugala vorto “preciso” signifikas e preciza e bezona. La frazo “navegar é impreciso” signifikas navigado esas neprecisa afero, ma aludas (e ludas) pri famoza poeziajo da Fernando Pessoa, en la portugala linguo, qua dicas “navegar é preciso, viver não é preciso”, navigado es bezona/preciza afero, vivar ne es bezona/preciza afero.

(7) Corvo esas brando, di vino. La portugala vorto “corvo” signifikas vulturo.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...